Ao dr. Alvares da Costa
Estava pallida e triste, encostada levemente á grade do camarote, n’aquella noite de estréa.
Os seus olhos, negros como a sêda que o seu delicado corpo vestia, divagavam pela platéa, indecisos, sem fixarem-se em ponto algum. Parecia uma d’essas melancholicas personagens de George Sand, phantasticas e idéaes, bellas, todavia, mesmo na falsidade da sua creação,—vivificada por um mysterio e conduzida áquella sala d’espectaculo, onde ostentavam-se as formosuras das moças da moda e as austeras sobrecasacas dos burguezes, sob a intensa luz do gaz.
E ella estava sempre pallida, encostada levemente á grade do camarote.
Nos labios tinha ingênuo sorriso, que espiritualisava-lhe a expressão da sympathica physionomia.
Um engraçado diabrête, primo d’ella, brincava-lhe com o leque.
Quem binoculisasse aquelle camarote, havia de sentir apoderar-se-lhe da alma uma commoção de piedade, tal era a melancholica tristeza evolada d’esse logar, d’onde ella dirigia o seu negro, o seu profundo olhar para a platéa, cujo ambiente saturava-se mais e mais dos effluvios de lindos lenços rendados, dos perfumosos lenços discretos das jovens damas….
E aquella encantadora creança que, sempre triste, encostava-se á grade do camarote, apresentava na pallida physionomia os vestigios do soffrimento, que tanto a tornava sympathica aos olhos da burguezia austeramente séria sob a luz intensa do lustre…..