Bem cedo, na manhã seguinte, enquanto o escrivão ainda estava na cama, o seu vizinho, um jovem estudante de teologia, que morava no mesmo andar, bateu em sua porta, e depois entrou. “Será que você poderia me emprestar as suas galochas,” disse ele, “o jardim está muito úmido, mas o sol está forte e brilhante. Gostaria de sair lá fora para fumar o meu cachimbo.” Ele vestiu as galochas, e logo estava no jardim, onde havia um pé de ameixa e um pé de maçã, contudo, na cidade, mesmo um jardim pequeno como este tem lá suas vantagens.
O estudante andou para cima e para baixo do caminho, eram exatamente seis da manhã, e ele podia ouvir o som da buzina do correio nas ruas. “Oh, viajar, viajar!” exclamou ele, “não há maior felicidade no mundo: é o cúmulo da minha ambição. Este sentimento inquietante permaneceria em silêncio, se eu pudesse fazer uma viagem para bem longe deste país. Gostaria de poder viajar para a Suíça, conhecer a Itália, e,” — ainda bem que as galochas começaram a fazer efeito imediatamente para ele, caso contrário ele poderia ter sido levado para muito longe de onde ele morava e também de nós. Num segundo, ele estava na Suíça, completamente amontoado junto com oito outras pessoas dentro de uma diligência.
Sua cabeça doía, suas costas estavam duras, e o sangue havia parado de circular, de modo que os seus pés estavam inchados e apertados dentro das botas. Ele oscilava entre os estados de sonolência e o de vigília. Em seu bolso do lado direito ele tinha uma carta de crédito, em seu bolso do lado esquerdo estava o seu passaporte, e algumas moedas de ouro tinham sido costuradas numa pequena bolsa de couro que ele levava no bolso da frente.
Sempre que cochilava, ele sonhava que tinha perdido um ou outro de seus pertences, então ele acordava assustado, e os primeiros movimentos de sua mão formaram um triângulo do bolso do lado direito até o seu peito, e do seu peito até o seu bolso do lado esquerdo, para sentir que tudo estava seguro. Guarda-chuvas, bengalas, e chapéus dançavam dentro de uma rede à sua frente, e quase obstruíam a visão da paisagem, que era realmente majestosa, e enquanto a admirava, suas lembranças recordaram as palavras de um poeta pelo menos, que havia cantado na Suíça, e cujos poemas ainda não tinham sido impressos:—
“Que maravilha para os meus olhos curiosos “Os belos picos do Monte Branco se erguem suavemente, “É tão gostoso respirar o ar da montanha, — Se você tiver poupado ouro o bastante.”
A paisagem ao seu redor era majestosa, escura e sombria. As florestas de pinheiro pareciam como colônias de musgo sobre as rochas elevadas, cujas cúpulas se perdiam dentro das nuvens de névoa. No momento, havia começado a nevar, e o vento soprava forte e gelado, “Ah,” ele suspirou, “se eu pudesse estar do outro lado dos Alpes agora, lá seria verão, e eu poderia conseguir dinheiro com minhas cartas de crédito. A ansiedade que sinto no momento impede de me divertir na Suíça. Oh, como eu gostaria de estar do outro lado dos Alpes.”
E então, num segundo, ele estava distante no centro da Itália, entre Florença e Roma, onde o lago Trasímeno[9] reluzia sob os raios de sol ao anoitecer como folha de ouro derretido entre as montanhas azuis escuras. Ali, na região onde Aníbal derrotou Flamínio, as videiras entrelaçavam-se umas às outras com o abraço amigável de seus tentáculos de gavinhas verdes, enquanto que, do lado do caminho, adoráveis crianças semi-nuas observavam encantadas uma vara de porcos negros como o carvão, sob as inflorescências do louro perfumado. Caso fôssemos capazes de descrever esta cena pitoresca e os nossos leitores diriam: “Como a Itália é maravilhosa!”
Mas, nem o estudante, ou qualquer um de seus companheiros de viagem tinham a menor tendência para pensar deste jeito. Moscas venenosas e pernilongos entravam dentro do coche aos milhares. Em vão, eles os expulsavam com ramos de murta, as moscas os picavam implacavelmente. Não havia uma só pessoa no coche cujo rosto não estivesse inchado ou desfigurado pelas picadas. Os pobres cavalos tinham um aspecto assustador, as moscas brincavam em suas costas aos enxames, e elas somente davam trégua quando o cocheiro descia e expulsava aquelas criaturinhas.
Quando o sol se punha, um frio congelante enchia toda a natureza, embora não fosse de longa duração. Ele dava a sensação que experimentamos quando entramos na sala de um funeral num dia de verão, enquanto as montanhas e as nuvens exibiam aquele tom verde e singular que observamos frequentemente nas pinturas antigas, e que se parecem tão artificiosas até que nós mesmos tenhamos visto o colorido da natureza ao sul. Esse era um espetáculo glorioso, mas os estômagos dos viajantes estavam vazios, seus corpos extenuados de tanto viajar, e todos os anseios de seus corações se voltavam para um lugar de descanso ao anoitecer, porém, eles ainda não sabiam onde podiam encontrar um lugar como esse. Todos os olhares procuravam avidamente um lugar para repousar, e se esqueciam de observar as belezas da natureza.
A estrada atravessava um bosque de oliveiras, isso fez lembrar o estudante dos pés de salgueiros que ele tinha em casa. Logo ali ficava uma estalagem solitária, e ao redor dela um amontoado de pedintes e mutilados se aglomeravam, o mais atilado dentre eles, para citar as palavras de Marryat, “era como o filho mais velho da Fome, que acabava de chegar à maioridade.” Os outros eram ou cegos, ou tinham as pernas estropiadas, o que os obrigava a se arrastarem sobre suas mãos e joelhos, ou tinham braços e mãos encolhidos e sem os dedos. Era, de fato, a pobreza vestida de farrapo. “Excelência, somos miseráveis!” exclamavam, estendendo seus braços disformes. A dona da estalagem recebia os viajantes com os pés descalços, cabelos desalinhados, e uma blusa suja. As portas eram amarradas com cordões, o assoalho dos quartos eram de tijolos, quebrados em muitos lugares, morcegos voavam sob o telhado, e o cheiro dentro da estalagem—
“Vamos fazer a ceia no estábulo,” disse um dos viajantes, “então saberemos o que estamos respirando.”
As janelas foram abertas para permitir que o ar fresco entrasse, porém, mais rápidos que o ar vinham os braços estropiados e os sons de lamentação contínuos, “Somos muito pobres, excelência”. Nas paredes havia inscrições, metade delas contra a “bela Itália.”
A ceia foi servida, finalmente. Ela consistia de sopa aguada, temperada com pimenta e óleo rançoso. Esta última cortesia fazia o papel principal na salada. Ovos mofados e cristas de galo assadas eram os melhores pratos da mesa, até o vinho tinha um gosto estranho, era certamente uma mistura. À noite, todas as caixas eram colocadas contra as portas, e um dos viajantes vigiava enquanto os outros dormiam. Agora, era a vez dos estudantes vigiarem. O ar passava longe daquele quarto, o calor queimava-lhe o corpo todo. Os mosquitos zumbiam por todos os lados e picavam, enquanto que os miseráveis que haviam ficado lá fora enchiam de lamúrias os seus sonhos.
“Viajar teria sido uma boa opção,” disse o estudante de teologia para si mesmo, “se nós não tivéssemos corpos, ou se o corpo pudesse descansar enquanto a alma está voando. Onde quer que eu vá, sinto uma agonia que me oprime o coração, pois no momento existe algo melhor, sim, algo melhor, e que será o melhor de todos, mas onde será que isso pode ser encontrado? De fato, eu sei em meu coração muito bem o que desejo. Quero alcançar a maior de todas as felicidades.”
Mal ele falou essas palavras e de repente já estava em casa. Compridas cortinas brancas cobriam as janelas do seu quarto, e no meio do assoalho havia um caixão negro, onde ele jazia no tranquilo sono da morte, seu desejo havia sido cumprido, seu corpo descansava e o seu espírito estava viajando.
“Nenhum homem pode dizer que é feliz até que esteja em seu túmulo,” foram as palavras de Sólon. E aqui estava a prova mais recente e inegável dessa verdade. Todo corpo é uma esfinge de imortalidade. A esfinge deste sarcófago poderia revelar seu próprio mistério com as palavras que o vivente tinha escrito dois dias antes —
“Morte implacável, teu silêncio arrepiante desperta o terror Contudo, em tua hora mais negra pode haver luz Ceifeiro do jardim da Terra! da cama fria do sepulcro A alma faz a sua decolagem sobre a escada de Jacó.
Os maiores pesares do homem, frequentemente são apenas uma parte Dos pesares ocultos, escondidos aos olhos humanos, Que oprime com muito mais peso o coração solitário Do que a terra que agora se encontra em seu caixão
Duas figuras se movimentavam pela sala, ambas são nossas conhecidas. Uma era a fada chamada Preocupação, e a outra a mensageira da Felicidade. Elas estavam inclinadas sobre o falecido.
“Veja”” disse a fada Preocupação, “que felicidade as suas galochas trouxeram para as pessoas?”
“Pelo menos, elas trouxeram a felicidade eterna para aquele que descansa aqui,” ela respondeu.
“Não é bem assim,” disse a Preocupação, “ele foi embora de si mesmo, ele não foi chamado. Seus poderes mentais não foram fortes o bastante para diferenciar os tesouros que lhe estavam reservados para descobrir. Vou lhe prestar um favor agora.” E ela tirou as galochas dos seus pés.
O sono da morte terminou, e o homem recuperado levantou-se. A fada Preocupação desapareceu, bem como suas galochas, não havia dúvida de que ela as considerava como se fossem suas próprias.