O bem soa, o mal voa

De ordinario voltam-se contra os poderes odiados os proprios meios empregados para algemar os povos. As visitas domiciliarias, as buscas, as denuncias, as multas, os encarceramentos, todos os instrumentos de tortura moral, em fim, excogitados pelo genio assolador de Lagarde, produziam effeitos contrarios aos que elle esperava colher, ulcerando o orgulho nacional, enfurecendo as populações, e predispondo-as para vingarem no primeiro ensejo todas as offensas de uma vez.

Em Mafra, aonde um conflicto casual custára a vida, ou o sangue a alguns soldados de Junot, a crueldade da repressão, confiada ao general Loison, acabou de exasperar os animos. O desditoso Jacintho Correia expiou com o supplicio a culpa, quasi geral, da aversão aos invasores.

Estes rigores, longe de as firmarem, tornaram mais frageis as bases da dominação estrangeira, que a todos os instante via desabar o edificio vacillante do seu poder. As devassas e monterias ordenadas contra as pessoas implicadas n’esta guerra surda, mas implacavel, ameaçando alguns innocentes, apenas réos do horroroso delicto de aborrecerem a usurpação, recrutou em favor da reacção patriotica numerosas e decididas adhesões.

Paulo de Azevedo Carvalho, que no «Moinho da Raposa» ouvimos citar como uma das victimas da intendencia geral da policia, salvo quasi por milagre, graças á rapidez da fuga, das garras dos emissarios de Lagarde, vagueára de asylo em asylo, acossado de perto, mas sempre protegido, desde Torres Novas até Santarem pela generosa cumplicidade, que lhe patenteava todas as portas, do palacio até á choupana, apagando logo depois com discreto silencio o menor vestigio de seus passos.

Uma imprudencia ajudou os que o perseguiam. Sua filha partiu de Torres Vedras para ir encontrar-se com elle, e os olhos de argos da policia seguiram-a na jornada até ao humilde casal, escondido nas mattas da Aramanha, onde a esperava Paulo de Azevedo, e onde lhe abria os braços a hospitalidade rude, mas sincera, do honrado fazendeiro Antonio Simões.

Disfarçados em mendigos ou em jornaleiros, os agentes de Lagarde depressa descobriram o foragido no seio da casa rustica, em que se abrigava. Assaltaram-a de noite com um cordão de milicias ás ordens de Estevan Cabrinha sargento no regimento de Rio Maior, e capaz de vender o sangue de mãe e irmãos, uma vez que o preço correspondesse. Falharam, porém, todas as precauções. Cabrinha errou o salto. Avisados a tempo o pae e a filha evadiram-se na vespera, e o sargento só colheu da ruidosa diligencia as maldições de Antonio Simões, maldições e despresos, que estava costumado a engulir, como ossos do officio, mas que registrava cuidadosamente para as descontar aos devedores na hora opportuna.

D’esta vez a divida não esperou muito. Uma busca de contrabando sobre denuncia falsa proporcionou-lhe o desejado pretexto. Antonio Simões da Aramanha deu-lhe o gosto de entrar dias depois sob seus auspicios na cadeia de Santarem, quasi arrependido da soltura de lingua, com que tinha lançado em rosto ao perseguidor as lagrimas e a ruina das familias, e os crimes contra a patria. O fazendeiro, todavia, não gemeu nos ferros de el-rei, como se dizia então, sem jurar pelas costellas ao malsim. Deante de testemunhas protestou moel-o com o cajado de zambujeiro, especie de clava, que achatava um homem como uma bolacha, e vozes chocalheiras avisaram o sargento da promessa caridosa. Cabrinha enfiou. O intendente geral da policia Lagarde servia-se do mastim e açulava-o contra o Ribatejo, não regateando ao mercenario venal as recompensas; mas era duvidoso que podesse eximir-lhe o corpo do premio, affiançado pela gratidão de muitas victimas.

Em quanto Paulo de Azevedo respirasse livre, o amor proprio e a bolsa de Cabrinha padeciam, e não era elle homem que dormisse, quando o interesse o chamava com voz activa. Suppondo o cavalleiro de Mafra ainda proximo, deixou-o socegar por dias, e valendo-se da ardileza de um subalterno sagaz, digno assessor de suas virtuosas emprezas, o coxo Gaspar Preto, conhecido pela expressiva alcunha do Sapo, mandou-o bater os arredores, na idéa de que a vista de lince do agente, com mais facilidade desencantaria, ainda quente, o ninho aonde se refugiava a presa.

Não se enganou. O Sapo, cujos brios avivára a esperança de rasoaveis lucros, entrou sem demora em campanha, e tres dias depois trouxe-lhe a agradavel nova de que o cavalheiro e sua filha se cobriam com o tecto modesto de uma casa, pouco mais do que choupana, solitaria, e situada nas abas da risonha povoação do Casal do Ouro no meio das vinhas e olivedos, que o vestem de verdura.

O sargento não perdeu tempo. Apenou seis milicianos fieis ao copo e ao cangirão, e, acompanhado por elles, prendeu de tarde e á traição a Paulo de Azevedo e a Leonor. Temendo, porém, que o povo se alvoroçasse, apezar das ameaças da trovoada metteu-se a caminho, não sem olhar a miudo para traz, receioso, sobre tudo na charneca, de que a bala perdida de uma espingarda lhe testemunhasse o reconhecimento grangeado por seus longos e valiosos serviços!

O homem põe, e Deus dispõe! A fortuna que o protegêra, detendo Manuel Coutinho no Cartaxo, sem o que teria encontrado o seu amigo e a sua noiva presos, (lance de certo fatal ao sargento), mostrou-se logo contraria a Cabrinha, não demorando uma hora, ou duas mais, tambem, o temporal, o qual, perto da Ponte da Asseca rebentou com violencia tal, que o constrangeu, á falta de melhor, e não sem grandes arrepios de medo seus, e dos soldados, a descançar aquella noite no palacio arruinado, temido na visinhança pelo significativo nome de Casa Negra, ou de Casa Maldita.

O Sapo, entretanto, não ficára ocioso.

Sabendo que Antonio Simões da Aramanha fôra solto da cadeia de Santarem por ordem do juiz de fóra, e que n’essa mesma tarde vinha dormir ao Casal do Ouro, doeram-lhe de repente todos os ossos, como se o cajado monumental lh’os triturasse, similhante a mangual na eira, e assentou livrar-se a si e ao sargento da promettida sova, interceptando na estrada o robusto fazendeiro com uma bala.

Esperou-o, pois, atraz de um vallado, em azinhaga escura e estreita, ao anoitecer. Escutando o ruido de passadas cheias renovou a escorva, engatilhou a espingarda, metteu-a á cara, e com a tranquillidade, com que poderia desfechar sobre uma lebre, disparou por entre as ramas sobre um vulto, que vinha dobrando a quina do caminho, e que soltando um grito agudo baqueou por terra.

―Deus seja com a sua alma! exclamou o assassino, saltando o vallado, e contemplando prostrado, e com o rosto banhado em sangue o corpo da victima, que todavia conheceu pela estatura e pelo trajo ser Antonio Simões da Aramanha.

―Está com Christo! ajuntou depois de olhar para elle instantes. Este já não morde. Falta o Antonio da Cruz!… Tambem lhe ha de chegar a sua vez!

Feito este responso, torcendo a perna, e apressando os saltos, em que despejava mais caminho do que os sãos, o coxo passou por entre as silvas, e atravessando pelas vinhas e hortas, veiu saír muito distante do logar do crime, ao alto do valle.

Soou a noticia do tiro dado em Antonio Simões. As mulheres, que se recolhiam do trabalho do campo, encontraram o corpo ensanguentado na azinhaga, e correndo e clamando, tocaram a rebate com a historia do homicidio por todas as portas. Juntou-se gente, accudiram alguns amigos, que o morto contava na terra, e em procissão encaminharam-se ao sitio aonde o desgraçado fazendeiro devia jazer, que era aonde a azinhaga cortava entre a Ponte de Asseca e a Casa Negra.

Caso inaudito, e que fez erriçar de espanto as grenhas hirsutas dos aldeões, por baixo dos barretes de lã e dos chapéus desabados! Nem rasto da victima! Sómente duas poças de sangue, e a cama feita pelo cadaver na terra molhada denunciavam a verdade das camponezas e a existencia do delicto!

Quem roubára aquelle corpo á sepultura christã? Quem fôra o assassino? A estas duas perguntas respondia a superstição, que só poderia ter sido o inimigo do genero humano, porque a azinhaga não se via trilhada senão dos pés curtos e deseguaes de um homem, que, fugindo, deixára assignalada no vallado a feição dos joelhos. Aonde acabavam as passadas fortes e largas dos sapatos de Antonio Simões não havia indicio de mais nenhumas.

A chuva caíndo em torrentes, os relampagos allumiando as trevas de clarões repentinos, e os trovões estalando uns após outros, depressa dispersaram os curiosos, que a luz de dois archotes, saccudidos e apagados pelo vento, não confortava muito contra os terrores do inferno, sobre tudo em tão medonha noite.

Benzendo-se, e acotovellando-se uns aos outros, recolhiam-se transidos, ensopados, e cheios de apprehensões, quando alguns mais audazes, que tinham ousado arriscar a vista na direcção do palacio arruinado notaram, que duas das janellas, sempre cerradas, deixavam transparecer por entre as taboas mal juntas uma claridade livida, brilhante na escuridão como os olhos de um demonio!

Esta ultima prova do poder sobrenatural do tentador foi tão decisiva que, trocando o passo ligeiro pela mais despedida carreira, os bons dos aldeãos, persuadidos de que Satanaz reunia na Casa Negra a sua côrte plenaria, não pararam senão á porta da egreja parochial, chamando pelo prior em altas vozes.

D’onde vinha ao palacio arruinado a má reputação, que afugentava de sua visinhança os moradores dos logares proximos? Que trasgo, ou que duende vexava com suas maleficas travessuras a casa ennegrecida pelo tempo, e rodeada de eterna solidão?

Construida nos principios do seculo XVII, o gosto depravado do architecto traduzia-se nos dois pavilhões lateraes, que acompanhavam o corpo do edificio, esmagados pelos tectos, e massiços como duas cidadellas, carregadas de tristeza. Revestidos de pesadas cantarias, com as janellas estreitas e de volta baixa, e as portas abafadas de lavores e ornamentos desgraciosos, o ar e a luz só a medo podiam circular pelas immensas salas e pelos extensos e escuros corredores, em que se repartia.

Solar desamparado, por mais de um seculo via-se as ervas crescerem nos pateos e eirados, as eras enrolarem-se pelos muros gretados, e os telhados verdejarem cobertos de plantas parasitas. Os anciãos mais antigos na terra, não se lembravam de nunca terem visto o dono d’aquella casa condemnada, e todos os annos os invernos, succedendo-se, e penetrando pelas brechas não reparadas, accumulavam ruinas sobre ruinas, estragos sobre estragos.

As lendas populares explicavam o destino singular d’aquelle palacio, o qual de certo vira dias mais ditosos, quando as malvas e ortigas não afogavam os canteiros de seus jardins, quando os entulhos não cegavam os canos á fresca lympha, que jorrava em tórnos de agua crystallina para os largos tanques de marmore, quando, finalmente, as colgaduras de couro e os pannos de raz não pendiam em farrapos das paredes fendidas e esverdeadas, e as manchas de humidade não desfiguravam os relevos e molduras dos tectos.

Que horroroso crime expiava o palacio deserto, cujos vigamentos pôdres estalavam com o peso de telhados arrombados, cujos moveis roidos de caruncho se desfaziam no pó da velhice e do abandono?

Contava a tradição que dois irmãos rivaes haviam disputado a mão de uma formosa dama, causa innocente do seu infortunio, e que o menos ditoso na porfia, como Iago, convertêra em desespero a felicidade do competidor, envenenando-lhe de suspeitas os amores. Não valeram prantos e supplicas contra as allucinações do ciume! O sangue da esposa e o sangue do filho innocente, doce fructo do seu enlace, vertido em um momento de delirio, vingou os zelos do marido, que suppunha lavar com elle a nodoa do nome e do brazão. Horas depois, mas sem remedio, descobriu-se a perfidia, e o desgraçado caiu em si do delirio, e viu-se tornado o verdugo de si mesmo e dos que mais estremecêra no mundo. O que passou n’aquella noite entre os dois irmãos é segredo, que dorme com ambos na eternidade. Sómente ao romper da aurora mais um cadaver descia ao jazigo da capella, e o infeliz, sobrevivendo á morte de todos os affectos, e algoz de todos elles, na edade de vinte e cinco annos, quando partiu para não voltar, mettia horror á vista. Os cabellos e o rosto eram já os de um velho. Bastaram poucas horas de remorso e de agonia para lhe consumirem a vida e a mocidade.

O lucto do senhor cubriu a casa, theatro de tantos crimes. Deshabitada, fugiam d’ella donos e creados como de um logar maldito. Sempre êrma, e sempre muda, só os echos accordavam n’ella com o anniversario do terrivel drama. O velho guarda, ao qual primeiro foram confiadas as chaves, despertando sobresaltado por horas mortas, subiu ao andar nobre, e caiu sem sentidos, paralyzado pela visão terrivel, que se lhe representou alli.

Viu uma fórma branca e suave, com os cabellos esparzidos sobre o collo, atravessar, chorando, as salas. Apertava ao peito uma creança adormecida, e seguia-a outro espectro ameaçador com o punhal erguido. Atraz, uma figura contemplava aquella scena rindo com satanica alegria. Os lustres accesos por si mesmos entornavam torrentes de luz livida sobre os aposentos. Os gemidos e soluços das victimas, o tinir dos ferros, as risadas e as imprecações retratavam ao vivo o tremendo espectaculo, em que o parricidio e o fratricidio tinham desempenhado os principaes papeis. O velho enlouqueceu de terror.

Desde então ninguem mais quiz tomar conta do palacio. Os morgados deixaram-o caír em ruinas a pouco e pouco, e quando os francezes sequestraram por ausente os bens do fidalgo, aquellas paredes infamadas não acharam comprador. O fisco não quiz para si senão a posse das terras, e arrendou-as. Parece, todavia, que a invasão dos estrangeiros excitára a cólera das potencias sobrenaturaes, porque nunca se tinham mostrado tão malfazejas e ruidosas. Um allemão excentrico, apostando hospedar-se alli uma noite inteira, foi achado ao amanhecer sem fala, nem movimento, e seis mezes depois ainda tremia quando lhe lembravam a aventura da Casa Negra.

Era, pois, desculpavel o susto dos aldeões. Vendo a luz coar-se através d’aquellas janellas sempre escuras, e não achando o corpo de Antonio Simões no sitio aonde fôra assassinado, tudo attribuiram aos maleficios, e escudando-se com o amparo da egreja, invocaram a protecção do parocho, persuadidos de que as iras divinas, provocadas pelas abominações dos jacobinos, haviam quebrado a lousa das sepulturas, soltando os espiritos das trevas para flagello e confusão dos inimigos de Deus e de el-rei.

Entretanto, cousa notavel (!) n’esta assembléa dos homens bons do logar, como diria um foral de nossos avoengos, faltava o João da Ventosa, o orador popular por excellencia, o Hortencio, o Eschino laureado d’aquellas visinhanças! O que o detinha? Pouco timorato por indole, e até para a epocha e para a educação assaz limpo de abusões, trazia de renda as terras da Casa Negra, pegadas com uma horta sua; mas se alguem lhe tocava na ruim visinhança do palacio, prendia-se-lhe de repente a voz, e uma visagem avinagrada torcia-lhe o semblante. Era mais orthodoxo n’este ponto, do que o cura. Os contos de visões e de almas penadas, que repetia, não concorriam pouco para entreter o pavor dos companheiros de copo e de touradas, os quaes se espantavam, de que elle tivesse animo para metter o arado e a enchada em terras, que mais deviam reputar-se vinculadas ao demonio, do que administradas pelo bondoso morgado, que as disfructára.

Mas como as terras eram excellentes e criavam bem, e como, não sendo affrontado por competidores, elle as trazia quasi pelo que queria dar por ellas, o João da Ventosa continuava a amanhal-as, e a servir-se das officinas do palacio, e até de algumas casas do andar terreo. Peccado de avareza que as almas pias e tementes a Deus prognosticavam, que lhe seria funesto um dia, arriscando-se a que o demonio, enfadado com o atrevimento, levasse pelos ares n’um furacão os bois, as charruas, o lavrador, os carros, e os telhados!

Nunca lhe viam o trigo e o milho na eira, que não rosnassem por entre dentes: «Queira Deus que o meu compadre uma vez se não arrependa. De parceria com o demo nunca ninguem medrou!» O João, como bom christão, ouvia-os, suspirando, queixava-se da carestia dos tempos, que obrigava o pobre a fazer pão até das pedras, e ia attestando de saccos o celleiro,  dizendo sempre que muitas noites não podia pregar olho com o alarido infernal, que ía lá por cima.

Dadas estas informações essenciaes, que o leitor benevolo desculpará, tornemos á nossa historia, e acompanhemos as diversas pessoas, que estão em scena, esperando por nós, tanto no Moinho da Raposa, como na Casa Maldita.

Quanto aos honrados aldeões, apinhados defronte da porta do reverendo prior, não nos dê cuidado a sua inquietação. O parocho, consolando-os com duas maximas em mau latim de orelha, prometteu-lhes exorcismar, mesmo de longe o espirito maligno, e recommendou-lhes que se recolhessem e abafassem depressa, porque a noite estava medonha, e o anno corria infamado de pleurizes e catharraes. Dito isto lançou-lhes a benção da janella, e foi sentar-se á mesa para não deixar esfriar a ceia. As ovelhas imitaram o pastor, e meia hora depois, acalmado o alvoroço, reinava na aldeia o mais profundo socego, apenas interrompido pelos latidos de algum cão impertinente, e pelas rajadas da chuva e do vento, com que a tempestade açoutava as copas das arvores, e fustigava os telhados das casas.