Desembocaram n’um largo. Era o ponto mais central da terra,―«a praça.»―Aqui e alli, ao acaso, algumas arvores enfezadas, quasi tudo olmos brancos, vegetavam a medo, com os troncos protegidos por velhas grades de madeira, desmanteladas. Era um terreiro vasto, muito chato, com casas em volta,―o que na villa havia de melhor em construcções. Ficava ao meio o pelourinho, exotico, mutilado, d’uma pedra grosseira e muito negra. Era uma alta columna de oito faces, com o seu annel de ferro ao meio, e uma argola pendente do annel. A columna, que se eleva sobre um pedestal de tres degraus, em hexagono, terminava ao alto n’um grande X de pedra deitado horizontalmente. Um espigão de ferro, de tres gumes como os floretes de esgrima, irrompia hostilmente do meio do X, perfurando o espaço. Em volta, a casaria era triste, sem estylo, sem gosto, sem cal. Algumas pedras d’armas em velhas paredes decrepitas, desequilibradas, hydropicas, attestavam aristocracias remotas, agora de todo extinctas. Ao alto, dominando a negrura chamuscada dos telhados, o velho castello, romano de origem, fazia tristeza com as suas ameias derrocadas, e as grossas paredes em ruinas. Ao lado do castello erguia-se destacadamente a velha torre do relogio, d’uma architectura primitiva. Tinham dado onze horas, mas eram apenas as sete: aquelle―«estafermo»―é que não andava nunca direito. De dia ninguem o entendia, com o seu ponteiro de ferro girando n’um mostrador sem lettras, d’uma pedra azulada. De noite fartava-se de badalar, alvoroçando a povoação como se fosse a fogo, ora atrazado ora adeantado, dando meia noite quando eram quatro da tarde, e meio dia mal despontava o sol.

Eram as sete. Áquella hora é que os―«figuros»―da terra, quasi tudo empregados publicos, vinham para o largo, á fresca. Alguns passeavam,―seu fraque, sua bengala de canna com castão, chapelinho á banda, sapato branco um ou outro. Nas escadas do pelourinho, sentados, outros do mesmo feitio cavaqueavam,―colletes desabotoados, perna cruzada, chapeu para a nuca, ás tres pancadas. Um de pera comprida, no degrau superior, contava facecias. Os outros riam alarvemente, chamavam-lhe intrujão. Algumas―«madamas»―pelas janellas em volta, nostalgicas, anafadas, de claro. Á porta do estanco, em cima, havia outra roda,―uns de pé, outros sentados em caixas, alguns montando cadeiras de pinho. Era a―roda mais forte,―quasi tudo maiores burocratas:―o Mello da Administração, o Antunes da Camara, o Escrivão de Fazenda, o Rodrigues do Real d’Agua. E outros. Á porta, perfilado e muito cerimonioso, o dono do estanco, alto, esguio, flexivel, com a sua cara rapada e o seu chinó castanho, eriçado e velho. Era de maneiras feminis, uma tallinha melliflua, cantante, viva, muito desempenado quando andava, saracoteando-se todo, em biquinhos de pés como se fosse levantar vôo. Chamavam-lhe Ernestinho. Não se podia fallar deante d’elle n’um rato morto, n’uma carocha. Aquillo «fazia-lhe nervoso», enojava-o, ficava-se a cuspinhar meia hora, dizendo constantemente:

―Ai Jesus! ai Jesus! Caticha! Nossa Senhora do Carmo! Nem sei como não lanço fóra.»

E se riam, elle exasperava-se: não comprehendia como podessem fallar em taes coisas… De resto, bom sujeito, finorio para o seu negocio,―um poucochinho beato,―diziam-lhe.

―Meu proveito. Não que eu não quero a minha alma nas penas do inferno, a arder. Leiam a Missão Abreviada, leiam esse rico livro.

E as palavras sahiam-lhe a correr, espremidas nos seus labios delgados, um poucochinho sibiladas nos ss.

―Cigarros, Ernestinho, um vintem d’elles. Querem-se dos de Lima, d’esses fortes.

Declarou que tambem havia dos «especiaes.» Algum senhor queria? Tinham chegado tres massos, p’ra ver. Oito por um vintem.

―Pois guarde-os!―disseram alguns, horrorisados com a idéa de dar um vintem por oito cigarros.―Guarde-os!

«O senhor engenheiro, quando vinha á villa, perguntava-lhe sempre por elles. Dos de Lima nem o cheiro, não gostava.»

―Olha o figurão!―disseram a rir. Por esse mundo fora sempre ha muito idiota! forte cavalgadura!

O Ernestinho veio com os cigarros, em feixe nas pontinhas dos dedos. Á porta, antes de os entregar contou-os de novo. Doze. Estavam certos.

―O senhor Ernesto, se faz favor, ponha isto lá no caderno, ao pé dos outros.

Ernestinho foi para dentro, contrafeito, fazer o apontamento. Houve um silencio opprimido, o dos cigarros tossiu para o quebrar, ao mesmo tempo que n’um gesto acanhado, receoso, fazia menção de offerecer:―«alguem era servido?»

Dentro do balcão, ao pé das garrafas com licôr, e das botijas de genebra, Ernestinho sommava a conta. Era já taluda.―«E vão dois e dois quatro e dois seis, seiscentos e vinte! Sabe Deus quando os receberia!»―E suspirava, arrumando os massos encetados, sob o olhar tranquillo e indifferente do Santo Antoninho que lá estava em cima, ao alto das estantes quasi vazias, no seu nicho feito d’um caixote forrado a verde, com flores artificiaes muito sujas e duas velinhas dos lados. Mas resignava-se, que não tinha outro remedio. Eram os ossos do officio…

Cá fóra tinham dado fé, acotovellavam-se chamando asno ao Ernestinho,―um pulha a quem ajudavam a viver… Se hoje não ha dinheiro, ha-o amanhã, essa é boa! E pagava-se, c’os diabos! E pagava-se. Mas não senhor! aquella besta mostrava sempre má cara, o alarve! A culpa tinham-na elles, afinal que o procuravam, que o preferiam. Tomaram os outros ter aquella freguezia…

O dos cigarros fiados annuia, assobiando baixo o Agua leva o regadinho. Por fim levantou-se, lentamente, com um ar de enfado, um sorrisinho de despeito nos labios, encolhendo os hombros.

―Estender as pernas,―disse. Quem vem d’ahi?

Todos ficavam, era uma estopada andar p’ra traz p’ra deante, n’aquella semsaboria da praça.

―Até logo. Você apparece no sitio, á noite?

―Appareço, vou á desforra.

E cumprimentando em roda:

―Meus caros! Muito boa tarde, sr. Ernesto.

Foi-se, puxando para baixo as pernas da calça, alisando as joelheiras.

―Que tal está o asno, hein? Quer, ainda por cima, que o Ernestinho lhe diga bem-haja…

Era um parvo.―Era um tolo.―Tinha dividas nos outros estancos.―Em toda a parte.―Lá em casa a familia passava fomes.―Um batoteiro de marca.

Houve agitação, alguns pozeram-se de pé, outros mudaram de logares. Ia a passar um grande carro de palha chiando muito. Ernestinho chegava-se de novo, muito ronceiro, roendo as unhas.

―Com que então… ponha lá ao pé dos outros?―disseram-lhe, para o lisongear nos seus despeitos.―Bem bom freguez!

Elle encolheu os hombros e cerrou os olhos, beatificamente, n’um gesto de martyr resignado. E não disse palavra―p’ra fallar d’aquelle tinha de fallar tambem d’elles…

Mandaram vir limonadas,―tres limonadas!

―Ahi vão trinta réis!

Diabo! era preciso animar aquillo. Assim não tinha geito. E pozeram-se a fallar do tempo, das moscas, d’aquelles idiotas que andavam na praça a dar-se ares. Ensoberbecia-os a ideia de que iam tomar tres limonadas,―e sentiam-se felizes, alegres, um tanto estroinas.

O Ernestinho deu dois passos fóra da porta, e chamou para a varanda, onde grandes mangericões floriam:

―Ó Emilia! Emilinha!

A mulher assomou, gorducha, muito molle.

―Tres limonadas, ouves? Tres limonadinhas, depressa.

As conversas animavam-se. Pois senhores! havia de ser difficil encontrar uma collecção d’asnos assim. Falavam dos que passeavam na praça, aos grupos.―Deus os faz, Deus os ajunta. O palerma do Fernandinho dera-lhe agora para cantar. Lá andava elle. Volta meia volta,

Vai alta a lua na mansão da morte

com umas tremuras na voz, que eram mesmo de o esbofetear. Estava antipathico, aborrecido, desde que andava de namoro com a Marques. Só tinha uma coisa boa―a caligraphia.―Um talhe de letra bonito,―confessavam.―E as calças, hein? reparem vocês n’aquellas calças, vae flammante. Casualmente, Fernandinho olhou de longe para os do estanco, disse-lhes adeus com a mão, affavel. Corresponderam todos, muito risonhos, mas a chamar-lhe nomes por entre os dentes:―idiota, palerma, pechisbeque…

Sósinho, n’uma lentidão moribunda, olhos nas botas, olhos no céo, o Telles escrivão passava ao largo, ruminando alguma poesia. Ás vezes quedava-se extatico, suspenso, o pollegar esquerdo entre os dentes, um olho cerrado fortemente, a meditar. Vinha um gesto e punha-se de novo em marcha, contrafeito.

―Ó senhores! mas não me dirão em que anda a parafusar o Telles, aquelle telhudo? E isto:―e poz-se a imitar o escrivão.

Riram. O Mello imitava-o bem, o alma do diabo, no andar especialmente. Mas aquillo era um logogripho. Ha uma semana ás turras a um logogripho em acrostico.

―Isso é o Telles!―fez um que vinha da praça.―Aquillo é um intrujão. Na rua não é que se adivinham logogriphos. Ó Ernestinho, você ainda tem d’aquillo que ferve?

O Ernestinho deixou descair o labio, não percebia…

―Homem! d’aquillo que vinha n’umas garraforias escuras, compridotas…

―Quer dizer gazosas. Uma rolha segura com guitas…

―Ora é isso mesmo, nem mais.

―Bem sei.

Mas não tinha já. Nem mesmo queria mais, p’ra que? Achavam caro um tostão…

―Eram aos tres para beber uma garrafa…

―Podera! Por um pataco, trinta réis levando o assucar, fazia o Hervas uma sóda,―objectaram alguns. Ponha lá que em gosto é a mesma coisa.

―E aquella porcaria, ó Ernestinho, e aquella porcaria amarella que sujava tudo de escuma?

Alguns cuspiram, disseram ao Alves que se calasse, que vomitavam, com seiscentos diabos!

―Cerveja!―disse o Ernestinho―cerveja! uma coisa que lá p’ra baixo toda a gente bebe por gosto, as senhoras mesmo.

E com um sorriso de desdem, exclamou:

―O que é ser do calcanhar do mundo! Em nome do Padre, e do Filho..

Mas na praça um grupo altercava. Ouviu-se distinctamente a palavra―«pulha»―pronunciada com força. Sahiram em tropel, ficaram só tres.―O que pagava as limonadas exultou:―Homem! nem de proposito! Ficava exactamente quem elle queria, estava mesmo a ver que aquella sucia lhe chupava o refresco:

―Tó Russa! já lá vae esse tempo.

Precisamente, a senhora Emilia chegava, com os copos n’uma bandeja:―Que provassem, diriam se precisava mais assucar. Mas parecia-lhe que devia estar bom…

Beberam d’um trago, estava optima. A senhora Emilia tinha dedo para aquellas coisas.

―Obrigado, ó Mello!

―Obrigado, ó menino!

E os dois sairam de rompante, chamando pato ao Mello, rindo-se d’elle e limpando os beiços.

Quando o Mello ia sahir,―a ver o que ia na praça,―o Ernestinho, muito cortez, objectou-lhe que faltavam trinta réis:―Se alli não tinha, depois. Isso era o mesmo…

―Mas trinta réis?!… De que são os trinta réis?―perguntou desconfiado o Mello.

―Do assucar, foi do refinado,―explicou o Ernestinho. O mascavado acabou-se. Amanhã ou depois já devo ter mais. O senhor Mello desculpe.

Não tinha que desculpar; sómente notava que aquellas coisas diziam-se no principio.―E sahiu sem dar mais palavra, furioso:―Uma ladroeira! Tres vintens não valiam os dois que lhe tinham chupado o refresco…

Na praça tinha cessado a altercação, os grupos, reunidos, formavam uma grande roda, commentava-se. O Mello quiz informar-se:―que lhe contassem―«o escandalo».

Ora! não fôra nada: o Veiga que se tinha lembrado que as correspondencias na Voz do Districto eram escriptas pelo Albano. Disse-lh’o na cara. O Albano negou, deu a palavra de honra. O Veiga que é casmurro, teimou:―que não acreditava, ainda assim!―Vae o outro chama-lhe pulha, iam-se pegando. Ora ahi está!

―Mas afinal, quem diabo escreve aquillo?―quiz saber o Mello. Aquillo ha-de ser escripto por alguem, está claro.

Dez réis pela novidade! Que havia de ser escripto por alguem sabiam elles…

―Quem, então?

Divergiam as opiniões. Podia ser Fulano, podia ser Beltrano. Um ou outro dava a sua palavra de honra que tambem não era elle, jurava-o. Houve um que se lembrou se aquillo seria do padre Mendonça.

―Qual! Do padre Mendonça não é. Fazia coisa melhor, se se mettesse n’isso. Olha o padre Mendonça, o da gibreira de Braga…

Mas o da idéa insistiu, renitente:―havia alli suas coisas que o faziam lembrar, certas facecias, como a de chamar Frei Asneira ao Reitor e Cabeça de Comarca ao Felisberto.

―Pois se é elle, que se regale, póde limpar as mãos á parede. Mente como um alarve, mente da primeira linha até á ultima!―disse firmemente o verdadeiro auctor das correspondencias. Olhem o que elle diz do juiz de direito, só calumnias! O juiz! um homem teso! Tem lá o seu fraco pelas saias, mas isso, que diabo! isso não é defeito.

De resto, eram todos accordes em que as correspondencias eram uma infamia. O que se chama uma infamia pegada. Mexericos e mais nada, uma coisa de soalheiro. E depois, o dizer-se lá que entre os rapazes não havia duas amizades leaes, que era tudo uma impostura…

Houve um silencio significativo, talvez de approvação.

―Só de pulha!―rematou, por fim o Nunes da Fazenda, o tal que escrevia as correspondencias com o pseudonymo de Aramis. Vejam vocês aquellas gallegadas ao commendador. Aquillo chama-se lá fazer politica?! Discuta-se o homem como presidente da camara, sim senhor, discuta-se o homem publico, o funccionario; mas deixe-se-lhe em paz a marreca, os fundilhos das calças; ninguem quer saber se os creados lhe param em casa ou se não. E depois, aquellas allusões á família, aquellas piadas á D. Engracia, pobre velha…

―A quem?―interrogaram uns poucos. Á Dona quê?

―Á D. Engracia, está bem de ver. Aquella beata que fazia piugas de lã aos missionarios é ella. Presumo eu que é ella—fazia o Nunes das correspondencias com um grande ar de supposição. Eu cá foi para onde deitei.

Os outros não. E como o das correspondencias tinha promettido explorar a chronica beata, aguardariam mais informações. Suppunham, no emtanto, ser com a D. Joanna, a do―«chá de herva cidreira.»―Outra canalhice! A D. Joanna, para festejar os annos da filha, convidára tudo, lazarões e penicheiros, não fizera politica. Depois foi aquella tareia que se viu:―que o chá era herva cidreira, que tinham bolor os doces de ovos, que ella parecia a quaresma e a filha o entrudo. Ora isto não se diz, a pobre mulher doeu-se. Citavam-se de cór phrases inteiras da correspondencia. Por exemplo:―A deusa da festa dizem que recebeu telegrammas de… amor.―Uma facecia de mau gosto alludindo ao Proença telegraphista. Depois do que por ahi se diz, é forte… Que afinal, quem sabe lá? Entre os dois que diabo póde haver? Namoro?

No grupo alguns tossiram forte, rindo. O Nunes interveio:

―Não senhores! Isto agora alto lá. A Amelia é uma rapariga séria…

Riram ás gargalhadas, foi um barulho com a tosse.

―Quando digo uma rapariga séria… Mau! Accommodem-se lá com o banzé, vocês deixem fallar,―tornou o Nunes, formalisado. Quando digo uma rapariga séria, quero dizer… sim… quero dizer…―e procurava a phrase, entalado,―por exemplo, que ella não é capaz de receber ninguem, alta noite, lá pelos quintaes, como o tal das correspondencias quer fazer suspeitar.

Iam replicar-lhe, mas elle atalhou:

―Chama-se áquillo ser canalha ás direitas, arre! Isto agora é fallar franco.

Saltaram-lhe:

―E você jura, ó Nunes? você jura?―perguntou, com gesto perfurante, o Alves dos Pesos e Medidas.

Não… isso agora…Jurar, não jurava, mas, c’os diabos! pelo que se via, pelo que se podia julgar…

―Léria!―disseram todos.

O Nunes parece que estava com os beiços com que mamára. Com que então, para elle era tudo uma récua de santas? Desenganasse-se, que era tudo uma canalha, uma corja de sonsas. Que diabo de ingenuidade!

O Nunes observou modesto, quasi agradecido:

―Ingenuidade, eu te digo… Não é bem isso… O que sou é prudente. Desconto sempre noventa por cento áquillo que vocês dizem, ahi é que está…

―Vocês é um modo de fallar,―emendaram alguns.

―Vocês, digo eu, vocês… quando escrevem correspondencias,―explicou sophisticamente o Nunes.

Calaram-se, disfarçaram. Proximo d’elles, a Amelia toda de verde, com guarnições de fita preta, caminhava ao lado da mãe, solemnemente. Tiraram todos o chapeu, cortejando risonhos, respeitosos. O Nunes foi cumprimental-as, submisso.

―Dar o seu passeio, não é verdade?―E apertando-lhes a mão:―Vosselencia como passou? A senhora D. Amelia? Obrigadissimo. Assim… assim…

Então? que diziam áquelle calor?

―Abafava-se, alli pelas duas. Que forno!

―O Brazil tal e qual―reforçou o Nunes.

Mas que fôra feito, que as não tornara a ver desde os annos? Uma noite de truz, aquillo sim!

―Olhe, senhora D. Amelia, a flauta… a flauta é que nem por isso, foi pena! O Abelsito andava constipado.

A D. Amelia explicou. A mãe ficara doente, já não era para aquellas noitadas.―E em voz mais baixa, quasi dolente:

―Depois, veio a Voz do Districto, aquillo chocou-a muito.

―Não ha tal!―fez a mãe. Metteu-se-te isso na cabeça. Deixe-a fallar, senhor Nunes.

E por pouco que não chorava ao dizer isto.

O Nunes affectou um sentimento profundo:―Era melhor não fallar n’isso, não pensar em tal; todos as conheciam, todos lhes faziam justiça. Tinham acabado de fallar na tal correspondencia, agora mesmo. Uma garotada!―resumiu o Nunes.―E em tom confidencial:

―Anda-se na pista do garoto. Elle ha-de apparecer. E depois… e depois… Muito boa tarde, minhas senhoras! O que fôr soará. É preciso dar um exemplo,―concluiu terminantemente. Uma severa lição!

Despediram-se, ellas agradeceram ao Nunes―«a parte que tomava no seu desgosto.»―E seguiram cumprimentando para as janellas, perguntando se vinham d’ahi, um boccadinho até á capella, espairecer.

As Silvas pediram que subissem. Um boccadinho só. Ficava muito bem aquelle vestido á Amelia.

Não podiam subir, talvez á volta.

―Pois sim, has-de ver o meu bordado a missanga. O papagaio está quasi prompto, que trabalhão!

Estava na duvida se lhe poria o bico assim, de gancho. Não gostava. O risco era do Fernandinho. Já lhes fizera outro, talvez mais bonito. Coisas de anjinhos:

―Verás.

Os grupos tinham-se reunido em volta do Pelourinho. Passava gente que vinha do trabalho, da labuta aspera da eira,―homens com malhos, e mulheres de cestas á cabeça. A tarde descahia n’uma serenidade calma. No degrau de cima, o Paula, official da administração, com fama de typo de chalaça, cantava em surdina umas cantigas de caserna, obscenas, zaranzando na barriga como se fosse uma guitarra. De volta, os outros formavam roda. Todos riam, pediam bis.

―Tu has-de conhecer isto, ó Chico,―dizia o Paula para o Francisco Maria, um cabo que estava de licença. Tu has-de conhecer isto.

O administrador do concelho, um pobre diabo desmazeladão e philosopho, affirmava que lhe lembrava Coimbra, a pandega das viellas. Ao Paula valia-lhe a prenda, palavra de honra que lhe valia a prenda, senão já o tinha demittido, ás vezes que lhe entrava borracho pela repartição. E pedia a rir, boçalmente:

―Ó Paula, aquella do bate-bate, canta lá.

E trauteava as primeiras notas, castanholando com os dedos.―Se era preciso, o Fernandinho ia pelo violão.

―É verdade, você que fez hoje que não me appareceu na repartição, ó Fernando?

―Dormi, está claro. Ao senhor doutor acontece-lhe o mesmo ás vezes. Olhem que pergunta!

Mas o Paula tinha-se calado, bocejava.

―Então, ó Paula…―supplicava o administrador.

―Está fechado o realejo… Depois.

Quem lhe dera que fossem as nove para irem até ao «sitio». Ou perder ou ganhar; tinha alli seis tostões que eram para um mico.

―Mas eu não lhe dizia, sr. doutor? eu não lhe dizia hontem que a dama se negava? Eu estava mesmo a ver aquillo… Bem feito! «gramou» um entalão que se consolou.

―Quatro corôas.―Na vespera tinha ganho um quartinho.

N’esse momento passava o juiz, sósinho como sempre. Todos tiraram o chapeu, elle passou gravemente, cortejando.

―Quem eu te quero á perna é o Aramis…―rosnou o Telles escrivão que embirrava com o juiz desde que o suspendera uma vez.―E ainda elle não sabe tudo…―insinuava perfidamente.

―Pois o resto diga-lh’o você, diga-lh’o no Almanach de Lembranças, em verso―fez d’um lado o Rodrigues do Real d’agua.

O Telles, com famas de litterato, redarguiu que não dava confiança a analphabetos.

―E eu a brutos, sabe você?

Mau! que elles lá começavam. Officiaes do mesmo officio… Ó senhores, lá porque ambos faziam versos não se seguia que devessem embirrar um com o outro. Pelo contrario.

O Telles, furioso, disse que não embirrava com o outro, que nem lhe dava essa importancia, essa honra.

O Rodrigues ia saltar-lhe, tiveram mão n’elle. Mas jurou que d’outra vez seria, que fizesse de conta que já lá tinha na cara quatro bofetadas tesas.

―Tesas, hein? olá! quatro bofetadas tesas.

Havia de dar-lh’as, tão certo como dois e dois serem quatro, só para ter o gosto de dizer depois, n’um communicado, que desaffrontara as lettras portuguezas,―elle, o Rodrigues, elle, um simples fiscal do Real d’Agua.

Aquillo fez surpreza, convidaram-no a explicar-se.

―Não senhores! dizia colerico o Rodrigues, com grandes gestos.―Bem sei que não valho nada. Escrevi, é verdade que escrevi; faço ainda o meu verso quando me dá na cabeça. Uma rapaziada! Estão maus? Concordo. Mas não ha de ser aquelle négalhé que o ha-de dizer. Não o julgo habilitado. Lá porque tem soletrado dois romances, não se segue. Mas o que mando para publico sim, o que entrego aos prelos―é meu!―E batia no peito com a larga mão espalmada, furioso, n’umas raivas, de orgulho triumphante.―Não roubo! nunca roubarei!―affirmou mais alto o Rodrigues, para que o Telles que se ia retirando, no meio de dois amigos, conciliadores, o ouvisse.―Repito: não roubo, não faço como elle!―E as palavras sahiam-lhe salivadas, violentas, por entre os labios espumantes, atiradas ao Telles como pedradas.

Os outros escutavam agora com interesse. Estavam a dar razão ao Rodrigues, instinctivamente, sem comprehender bem o que elle queria dizer.

―As provas…―e metteu a mão no bolso do seu casaco de lona, com impeto:―as provas, vel-as aqui estão!

Mostrou no ar a brochura verde do Almanach de Lembranças.―Era do anno que vem, tinha-lhe chegado hoje. Alli estava o Peres do correio que lh’o tinha entregado elle mesmo.

―Sou testemunha―confirmou do lado não sei quem.

O Rodrigues, então, affirmou que era preciso historiar, contaria a coisa em duas palavras. O sr. Telles, o borrabotas do sr. Telles, lembrara-se um dia de ser escriptor, de ser poeta. O alarve! Todos os annos―zás! versalhada para o Lembranças…

―Era collaborador―disse o Antunes da Camara que admirava o talento de Telles.―Era collaborador.

―Era quê?―interrogou logo o Rodrigues, de mão atraz da orelha.―Massador, massador é que elle era. Nunca lhe admittiram as asneiras, se me faz favor, nunca! Na correspondencia troçavam-no, chegaram a dizer-lhe que podia fazer fortuna pelas tombas, que o não chamava Deus para as lettras. Aquelle Serei ousado? é elle, sei que é elle. Nunca o admittiram.

―Lembro-lhe a Flor do Campo, sr. Rodrigues, lembro-lhe esses versos―insistiu o Antunes.

O Rodrigues teve um risinho feroz, fitando o Escrivão da Camara. Não lhe respondeu. Subiu os tres degraus do pelourinho, pausadamente, com pompa, e chamou a attenção dos amigos. Ia ler. Abriu o Almanach de Lembranças, onde trazia um papel, e rompeu:―«Indignidade».

―Em lettras bem graúdas, queiram inspeccionar.

E colou ao peito o Almanach, voltando para fóra na pagina onde o seu dedo reboludo apontava a terrivel palavra, escripta ao alto em epigraphe.

Houve um sussurro, alguns pediram silencio. O Rodrigues que lêsse.

«Os versos intitulados Flor do Campo, que viram a luz no Almanach de Lembranças do anno extincto, foram-nos remettidos pelo sr. José Maria Telles, escrivão.»

―Copiados por mim, uma letra floreada―esclareceu o Fernandinho.―Elle depois assignou―e fez no ar, com o dedo, o traço complicado da firma complicada do Telles.

Pediram silencio outra vez. O Rodrigues continuou:

«Publicámol-os na convicção de que eram da lavra d’aquelle senhor, pois que elle os assignava.»

―E então?―perguntaram uns poucos, sem comprehender ainda.

―«Pura illusão!»―continuou solemnemente o Rodrigues.―«Escreve-nos o mimoso e assaz conhecido poeta sr. Alfredo Mendonça, dizendo que os versos lhe pertencem, e que o sr. Telles os roubara (sic) do seu volume Lyra Matutina.»

Foi uma estupefacção! O Rodrigues proseguiu mais alto, fugindo aos commentarios:

«Averiguámos, e d’isso alfim nos convencemos. Os leitores avaliarão a probidade do sr. Telles, a quem mais de uma vez tinhamos fechado a nossa porta por incapaz. Hoje damos-lhe com ella na cara―por indigno.»

E o Rodrigues fechou o livro com estrondo, como os outros fechariam a porta na cara do Telles escrivão; tomou praça fóra, o livro debaixo do braço, e foi-se para o estanco do Ernestinho, altivo, solemne,―vingado!

Os da roda seguiram-no silenciosos, corridos de vergonha, desnorteados, porque além de sempre terem julgado o Telles muito superior ao Rodrigues―e o Rodrigues bem o sabia, olha elle!…―tinham dado uma sorte de mil demonios, agora é que elles viam! distribuindo no theatro, por occasião da festa de Santa Barbara, a Flor do Campo que elles tinham mandado imprimir avulso―para lisongear o Telles que tivera o trabalho de os ensaiar no Santo Antonio. Hein? quem diabo havia de dizer que aquelles papelinhos de côr, uns verdes, outros amarellos, chovendo sobre a plateia entre o segundo e o terceiro acto, e quasi disputados a murro, n’um alvoroço de seiscentos diabos, encerravam uma insidia,―um logro á boa-fé, á credulidade ingenua de toda a comarca!

E relembravam episodios, particularidades quasi extinctas: o Fernandinho vestido da menino do côro, batina vermelha e roquete de rendas, cobrindo-se de teias de aranha lá pelo fôrro do theatro, de gatinhas e com um «tôco» de vela na mão, aos tropeções, só para ter o gosto de ser elle a despejar do oculo aquella papelada; o Mello da administração, vestido de Frei Antonio, sandalias e grande chinó de calva redonda, feita d’uma bexiga de porco, com o Telles em triumpho por entre os bastidores, seguido pela turbamulta dos companheiros, em habitos de frade e fardetas de galuchos, dando vivas ao poeta! ao grande Telles, ensaiador da rapaziada!

Que desastre! Afinal tinha-lhes sahido um intrujão! E quasi se regalavam da sorte que tinham dado, pelo prazer que sentiam de o ver agora humilhado, corrido, esbofeteado pelo ridículo. Bem feito!

O Antunes da Camara, sobretudo, estava furioso. Fôra elle o da lembrança de se mandar imprimir a versalhada. Escrevera para Coimbra ao Manuel Caetano, ao Manuel Caetano da Silva, Praça Velha n.º 11, que mandava os impressos para a camara, e pedira-lhe aquillo como especial favor. O homem―prompto. Duzentos exemplares, quinze tostões. Quinze tostões que se tinha combinado dividir por todos, contas do Porto, mas que desembolsara elle só, afinal. Bem feito! ninguem o mandava ser burro. Arre! cavalgadura!

E dava patadas no chão, cada vez mais furioso, apopletico.

―Mas a bem dizer, tudo isso é nada!―continuou commovido o Antunes.―Ó senhores! e a figura que eu fiz… sim, a figura que eu fiz n’aquelle intervallo do drama para a farça?…

Todos desataram a rir, tinha sido fresca… Elle sempre acontece cada uma! E relembravam:―levantara-se o panno quando os ouvintes menos o esperavam. Os que tinham sabido lá fora, ás doceiras, voltaram apressadamente com os cartuchos na mão, ensacando os rebuçados. Ia um reboliço pela plateia. Na «galeria dos camarotes» para onde só iam senhoras, gente fina, começavam a apparecer caras barbadas de sujeitos que iam saber «que tal», perguntar se ia uma pinguinha de licôr, um docinho. Em cima, na galeria alta, creadas e raparigas do povo, debruçadas no parapeito, apontavam para o palco, d’olhar attonito.

―Elle que dianho é?―perguntavam.

De baixo, da plateia, todos faziam chut! voltados lá para cima:

―Caluda, sua gentalha!

No palco estavam todos perfilados, trajando como na peça. O Freitas da recebedoria com o seu fato de Marco Aurelio; o Paula de cardeal, baculo em punho e a cara mettida n’uma estriga; o Fernandinho de menino de côro, todo lépido; a Anna Pisca muito acanhada no seu fatinho de Olivia; a Margarida que tinha feito de anjo no quadro final da Gloria, em que ella subira n’um cesto vindimo á «região sidéra dos astros»; o pae de Santo Antonio, em ceroilas e de saia branca pelo pescoço, livido como saira do tumulo; aquella canalha da tropa―todos emfim!

N’isto, entra pelo fundo o Telles todo de preto, no meio do Mello vestido de Santo Antonio e do Proença telegraphista que fazia de Frei Ignacio. Avançaram. Em baixo, o Felisberto mandou tocar o Hymno da Carta á meia duzia de musicos que não entravam na peça. O hynmo rompeu com grande estampido de pratos, n’uma cadencia funebre. No palco, tudo immovel. Ninguem sabia o que era aquillo, não estava no cartaz. Esquecimento do Fernandinho, talvez… pensavam.

Mas ao acabar o hymno, o Antunes da camara, com farda de centurião, durindana e botas d’agua, irrompe furioso do buraco do ponto e préga um discurso na bochecha extatica do Telles:

«Não era elle o mais competente, de certo, o mais… etc. Mas tinham-no encarregado, obedecia… e tal. Só sentia não ter phrases, oratoria, porque emfim estava falando a um poeta…―collaborador do Almanach de Lembranças para Portugal e Brazil―accrescentou voltado para o publico, esclarecendo. Emfim, finalmente… vinha para aquillo: dar-lhe um abraço em nome de todos…―e abraçou-o commovido, emquanto os espectadores berravam apoiados, dando palmas―«… e para isto»―accrescentou fazendo com a mão que se calassem, que se calassem depressa.

Houve um sussuro de applauso, dos camarotes creanças gritavam―«ó Emilinha!» Era com effeito a Emilinha, a filha do Alves dos Pesos e Medidas, que sahia tambem do buraco do ponto, vestida de anjo, tules verdes e muita lentejoula a brilhar.

Ficou-se a olhar a plateia, immovel, muito fria, ensaiada, emquanto o Felisberto preludiava na flauta. Em certa altura, n’um requebro doce da «melodia», elle fez-lhe com a cabeça «que entrasse», e a Emilinha rompeu n’uns guinchos, cantando a Flor do Campo, com musica da Muchagateira original do Peres do correio.

O Telles sorria, entre glorioso e modesto, fallando a Santo Antonio e a Frei Ignacio:―Era de mais, era de mais, elle não merecia…―Ora essa! pareciam dizer-lhe os outros―seriamos ingratos se…

A «cantoria» acabou, o theatro parecia desabar com palmas, tudo berrava, um ou outro cão latia. Se não quando, os do palco desataram a rir, cosendo-se uns aos outros, fingindo um grande medo de que as bambolinas do tecto desabassem.

Todos olhavam, curiosos. E n’aquella espectação viram de repente descer do alto, sobre o palco, agarrado a uma corda, o Freixedas da Mercearia vestido de Lusbel, rubro e com chavelhos. Cuidaram de estoirar a rir. Da bocca muito inchada sahiam-lhe faulhas, do algodão a arder que lá trazia dentro. Fazia caretas horrendas, arremedando Satanaz nos impetos da colera. O panno começou a descer, obliquo, esfarrapado d’uma banda. O Freixedas, suspenso, atirou fóra o algodão e gritou, furibundo:

―Alto! suas bestas! Inda não!…

Voltou-se de costas para o publico, e um letreiro que trazia d’hombro a hombro dizia em caracteres amarellos―C’est fini! O panno desceu então, estabalhoadamente. Os espectadores olharam uns para os outros, não tinham percebido… Foi n’esse momento que o sr. Antoninho, que tinha estudado em Braga, traduziu d’um camarote, em voz alta:

―É findo!