Cubiça e Nobreza

O intendente geral da policia era homem de sala. No tracto usual ninguem o excedia em delicadeza.

Apenas apontou ao limiar, inclinando-se profundamente, adeantou-se com o chapéu na mão. Com o sorriso estereotypado nos labios beijou a mão, que Leonor de pé, séria, e grave, nem lhe estendeu, nem lhe recusou.

Seguiu-se uma pausa curta durante a qual a vista do ministro se cruzou com a da donzella, frias e penetrantes ambas como duas espadas.

A um aceno cortez da filha de Paulo de Azevedo, offerecendo-lhe cadeira, Lagarde escusou-se com o gesto, ajuntando logo risonho:

―Minha senhora… Venho como supplicante mover a piedade da belleza deshumana, e os supplicantes não se assentam em presença dos juizes.

―Vem mover a minha piedade, ou offerecer-me a sua?! accudiu a donzella em tom ironico. Não mudemos os papeis! A supplicante devo ser eu. O vencedor não veiu aqui dictar-me as condições na idéa de me achar resignada a escutal-as e a submetter-me?!… Não o incommoda ficar de pé?…

―Não, minha senhora. Tenho de pedir licença para lhe apresentar outra visita…

―Outra visita?!

―Meu sobrinho…

―Seu sobrinho?!…

―Era tempo, não lhe parece?…

―Eu!…

―Percebo! É-lhe indifferente? Consinta que junte duas palavras. Quer que lhe fale como amigo?…

―Se póde!… Receio tanto o intendente geral da policia!…

―Não receie. Seja menos injusta. Desejo-lhe bem. Respeito a sua firmeza, préso os seus sentimentos de filha extremosa, e sei que se quizer ha de fazer a felicidade do marido que preferir.

―Tantos louvores, sr. Lagarde!… Ha quantos mezes me avalia assim? accudiu Leonor sorrindo, mas tornando-se logo séria. Confesse que tenho motivos fortes para suppor o contrario. Costuma tractar, como nos tractou a nós, as pessoas que lhe merecem bom conceito?!…

―Ah, cruel!… volveu o ministro, córando um pouco, porém disfarçando a torvação momentanea com o riso. As setas são agudas, e essa mão mimosa aponta-as com uma certeza! Pois bem! Se fiz o mal, posso ao menos dar-lhe remedio… O conselho de guerra ámanhã, ou depois, reune-se para julgar seu pae… A sentença depende das provas, e as provas principaes estão nas minhas mãos. De mais, Lunyt, o secretario de estado dos negocios da guerra, é meu amigo intimo… Já vê! Se eu interceder e ajudar… o sr. Paulo de Azevedo sae absolvido e solto…

―Bem o sei, redarguiu a donzella. Quererá o sr. Lagarde?…

―Duvída?! Porque tem tão pouca fé?…

―Porque não acredito facilmente em conversões repentinas. Perseguiu-nos sem tregua, não socegou em quanto não teve meu pae em ferros, e hoje… offerece-me ser o seu protector!?… Ha grande mysterio n’isto, não o negue!… Temo que exija tanto da minha gratidão em premio, que eu não deva acceitar!

―Nada escapa á sua agudeza! Quer saber tudo? Tem razão. Joguemos liso. Posso interessar-me, e ser ouvido, falando a favor do pae da noiva de Armand, de meu sobrinho; mas percebe muito bem, por maiores que fossem os meus desejos de servir, que o empenho não teria a mesma força, se o mettesse em beneficio de estranhos… de pessoas desaffectas ao governo de sua magestade o imperador e rei. Agora permitte que meu sobrinho entre? Espera as suas ordens n’aquella saleta…

―Pois sim. Uma palavra antes, sr. Lagarde. É a noiva, ou é o dote, o que mais o tenta n’este negocio?!…

―Oh, minha senhora, que pergunta! Que offensa!… O dote?!… Não faz mal, de certo o dote, a riqueza nunca se despreza; porém o thesouro d’essa linda mão!…

―Supponha que… em troca da sua… como hei de dizer?

―Diga amisade, minha senhora, amisade sincera. Fale affoutamente!…

―Talvez seja muito. Benevolencia parece mais natural… Supponha, pois, que em troca da sua benevolencia eu cedia o dote, e guardava a linda mão… que é já de outro, e que em nenhum caso, aconteça o que acontecer… darei a seu sobrinho?…

Leonor falava serena, e sorrindo-se, porém a voz e o tom affirmavam assás, que a proposta era positiva, e que a resolução tomada seria inabalavel. Lagarde franziu o sobrolho, raspou com o dedo a ponta do nariz, cortejou-a em silencio, e reconcentrou-se por instantes como quem reflectia.

―O dote sem a mão?! disse por fim lentamente, e esbrugando as palavras como se as pezasse. Julga, minha senhora, que seria possivel?…

―Depende da minha vontade, e estou prompta.

―Não me entendeu! É uma esmola, que nos quer fazer a meu sobrinho e a mim, ou uma peita, com que espera subornar o ministro?…

A interrogação parecia aspera; porém o olhar e a voz não podiam ser mais amaveis. Leonor concebeu esperanças.

―Nem uma, nem outra cousa! É um testemunho de reconhecimento. Protesto-lhe que dos tres a mais agradecida serei eu.

―Esquece-lhe, que o mundo dirá, que me vendi!… Não pode ser! Uma esposa não se nota que seja generosa, porém uma estranha!… Minha senhora, não decida nada sem o conhecer. Armand está aqui. É moço, é gentil, é brioso. Merece-a. Sei que o accusam de ser um pouco estouvado e perdulario. Não o defendo. São defeitos que o matrimonio corrigirá. Veja-o!… Tome tempo!… Não me julgue tão mau como dizem os meus inimigos. Tudo ha de compor-se.

―Deus permitta! replicou a filha de Paulo de Azevedo.

Mas a sua phisionomia espirituosa traduzia perfeitamente, sem os disfarçar, a malicia e o despreso, com que assistia ao combate da avidez e da cubiça na alma de Lagarde, impaciente de receber o que lhe promettiam, mas preso ainda, apezar do cynismo, pelos escrupulos de um resto de decoro e de respeito  da sociedade. Talvez, que não o embaraçasse pouco n’este conflicto a idéa, que formava do caracter do sobrinho, e a apprehensão de que elle recusasse favores, cuja origem o cobriria de opprobrio.

―Deus quer o nosso bem, e ha de permittir!… atalhou o magistrado, todo brandura e delicadeza. Sobre tudo se fizermos da nossa parte…

―Da minha tudo, menos!…

―Não diga isso!… Esse menos é que precisamos que desappareça. Meu sobrinho é um cavalheiro…

―Affiança-m’o?… N’esse caso estou socegada. O menos virá d’elle!…

Uma sombra escureceu o rosto do intendente. Ainda não lhe occorrêra esta hypothese, e um estremecimento nervoso avisou-o, de que ella podia converter-se em obstaculo insuperavel. Que certeza tinha de que Aubry annuisse ao pacto infame, que procurava extorquir, fazendo da cabeça de Paulo de Azevedo o penhor da docilidade de sua filha?

―Não imaginemos coisas tristes! redarguiu contrafeito. Seu pae, lembre-se, está preso, e em vesperas de ser sentenciado…

―Meu pae, tornou a donzella altiva, saberá morrer, que lh’o ensinaram os seus antepassados; o que nunca soube, nem ha de aprender na velhice, é a vender o sangue da sua alma, a ventura e a dignidade de sua filha para salvar a vida.

―N’esse caso!… Mas o pobre Armand!… Falámos tanto d’elle que por fim esqueceu-nos! Como ha de estar impaciente. Tinha um desejo tão ardente de vir aqui!… Ah, ri-se? Não acredita?!… Pois é verdade. Dá licença?!…

E sem aguardar mesmo o aceno secco de cabeça, com que Leonor respondeu, Lagarde, precipitando-se direito á porta, cortou com esta saída theatral a conversação no ponto, em que ameaçava tornar-se tempestuosa. Em quanto elle saia, a donzella enxugou á pressa duas lagrimas, reprimidas até então pelo orgulho, e inclinou a fronte como se lhe faltasse o vigor para supportar mais. Durou só um momento esta fraqueza. Um minuto depois erguia a face, e tornava a obrigal-a a exprimir a frieza glacial do papel forçado, que se via constrangida a representar. Um rapido volver de olhos á porta de vidraças, detraz da qual Manuel Coutinho escutava, e um suspiro ancioso foram os ultimos signaes do seu desalento.

O intendente entrava com o sobrinho.

Vendo-o, Leonor córou, e fez-se logo, pallida.

O mancebo, contemplando-a, sentiu-se vencido de repente, e conheceu que aquella bella e doce imagem se lhe gravára profundamente no coração. A tristeza resignada, que respiravam as feições da donzella, a sua vista magoada, mas serena e quasi severa, e a casta e graciosa elegancia do porte, acabaram de o render. O semblante, em que um momento antes sorria zombeteira a mofa do conquistador, seguro do triumpho, desarmou-se instantaneamente da expressão quasi insolente, e inclinando-se, perturbado, e reverente, Armand saudou a filha de Paulo de Azevedo como poderia saudar uma rainha no seu throno.

―Aqui vem a seus pés mais este captivo, minha senhora! exclamou o intendente no estylo refinado e galanteador da côrte franceza. Compadeça-se d’elle. Não consinta que suspire em vão!

Armand empallideceu. Não era com gracejos vulgares e pueris, que elle agora desejava expressar á donzella a admiração. O official, de ordinario tão solto e audacioso, já não achava phrases que pintassem o estado da sua alma. Mas se os labios eram mudos, falavam os olhos, e o proprio enleio significou uma homenagem á amante de Manuel Coutinho.

―Veja como a adora! proseguiu Lagarde, que, sem o querer, representava o papel comico de um tutor de entremez. Que victoria, minha senhora! Fez como Cesar, viu, e venceu!…

―Ah! interrompeu Leonor, deixando cair de alto sobre o tio e o sobrinho uma vista ironica e aguda, que os gelou a ambos, porque o despreso e o escarneo, que exprimia, traspassava.

―Meu tio!… murmurou Armand confuso, e recuando como ferido de uma bala.

Houve uma breve pausa. O ministro estudava um exordio, que o salvasse dos apuros do lance, em que se mettêra, amaldiçoando interiormente Aubry, cuja falsa delicadeza começava a assustal-o. A filha de Paulo de Azevedo, em pé, branca como uma estatua de alabastro, mas imperiosa, amparava o corpo gentil com a mão no espaldar da cadeira e n’esta posição, cheia de dignidade, aguardava silenciosamente, que um dos dois ousasse dizer-lhe tudo.

O mancebo, que a interjeição de Leonor fizera córar até á raiz dos cabellos, e que a vista de tantas graças e enlevos cada vez seduzia mais, esperava ancioso, que o intendente, auctor do enredo, lhe rompesse o caminho, temendo adivinhar na mudez e no ar soberano e offendido da bella portugueza um trama, que a honra o obrigasse a desmentir.

―Armand, minha senhora, disse por fim Lagarde, que o amor proprio e a cubiça forçavam a insistir, encarrega-me de lhe pedir,  que se digne receber os testemunhos de seu respeito e adoração.

―Sempre como procurador?!… atalhou ella com um sorriso ironico.

―Em pessoa, minha senhora, em pessoa!… Se não veiu mais cedo é que…

―Meu pae não estava ainda quasi no oratorio, e o sr. Lagarde temia que a filha fosse menos docil?

―Oh!… bradou Armand, encarando o ministro severamente, e adeantando-se impetuoso. Minha senhora, balbuciou depois, se aqui vim foi attrahido por uma doce esperança, que vejo ter sido chimerica… Posso saber o que meu tio quiz fazer, valendo-se do meu nome? Presinto um segredo de violencia, talvez de iniquidade, mas, juro-lhe pela minha honra, que estou innocente… que sou incapaz de acceitar a sua mão, que me faria bem ditoso, agora o sinto, se livremente m’a não désse. Peço-lhe a verdade! Ao menos não me condemne sem me ouvir!…

Lagarde não soube conter-se. Um raio, que lhe estalasse de repente sobre a cabeça, não o teria desfigurado tanto. Empregado o ardil classico do famoso quadro do sacrificio de Ephigenia, escondeu metade da cara no lenço de assoar, pedindo a Deus que um alçapão propicio se lhe abrisse debaixo dos pés para o sumir da vista irritada dos personagens, cujas explicações previu, que iam desmascaral-o inteiramente.

Leonor, escutando as nobres palavras de Aubry, recompensou-as com um olhar sympathico. O semblante perdeu a expressão severa, e a voz, meiga e commovida, vibrou harmoniosa, como um canto suave, no peito agitado do official francez.

―Agradecida! redarguiu offerecendo-lhe pela primeira vez a mão, que elle beijou estremecendo. Não tenho que lhe perdoar… Agora vejo! O sr. Lagarde… como hei de dizer toda a verdade!? O sr. Lagarde prendeu meu pae, accusou-o, e tem suspensa sobre a sua vida a espada de um conselho de guerra… Tinha-me falado ha mezes n’este casamento… A minha recusa aggravou-o… e hoje, aqui mesmo, veiu propor-me salvar meu pae se eu consentisse…

―Oh, meu tio! interrompeu o mancebo fulminando o intendente com os olhos, e vermelho de colera e pejo. Não diga mais, minha senhora. Adivinho a resposta. Regeitou!…

―Regeitei! continuou a donzella. A minha mão pertence a outro; o meu amor não se vende.

―Nem o meu nome se infama! rugiu Aubry tremulo de raiva. Sr. Lagarde agradeça ao sangue, que nos corre nas veias, a minha paciencia! Se não fosse! E suffocado em ira apertou os punhos, e levou-os á fronte. Lagrimas de indignação rebentaram de seus olhos seccos. O intendente parecia petrificado.

―Offereci o dote sem a noiva; proseguiu Leonor. Era o meu resgate. Oh, perdoe sr. Aubry, não o conhecia ainda. Depois que o ouço… não lhe faria a affronta de suppor…

―Vê! accudiu o official, colhendo o ministro do braço, e saccudindo-o com furia. Vê a que me expoz?!… Meu tio, tenho vergonha, queima-me os labios dar-lhe este nome! Quem lhe deu o direito e a ousadia de arrastar o meu, o nobre appellido de meus virtuosos paes pelo lodo de suas torpezas?! Sou pobre, accrescentou voltando-se convulso para a filha de Paulo de Azevedo, mas a pobreza supportada com valor, com alegria, como eu a supportei sempre, não desdoura, engrandece. Hoje não possuo outras riquezas, senão o orgulho da propria indigencia, que nunca ajoelhou, o respeito do nome sem macula que herdei, e esta espada… que póde abrir-me o caminho da gloria, ou o da sepultura!… Nunca me passou pela idéa, que houvesse no mundo um coração tão vil e corroido, que se atrevesse a cuspir no meu rosto e sobre as cinzas dos que mais amei a injuria de me aviltar ausente a especulações infames!… Socegue, minha senhora! Todos os thesouros da terra, depois d’isto, não me obrigavam a acceitar a sua mão, ainda que m’a offerecesse.

―Louco! D. Quixote! Nescio!… rosnou Lagarde, ao qual a generosa declaração do mancebo restituiu a voz, e redobrou a ira de se ver descoberto e punido.

―Senhor Lagarde! disse Armand, cravando n’elle um olhar sombrio. Sei que devo parecer-lhe nescio e estouvado. Glorio-me da censura. O que me faria córar eternamente seria um elogio… depois do que acabo de ouvir.

―Senhor Aubry, observou Leonor, creia que nunca hei de esquecer a nobreza do seu caracter. Aonde quer que a fortuna o leve… conte com a minha amisade. Não sou ingrata. Se meu pae escapar…

―Ah! exclamou o mancebo. Esquecia-me! Senhor Lagarde! ajuntou, travando rijo do braço ao ministro, que se ia desviando para se evadir desapercebido. Uma palavra antes de sair! Os vinculos do nosso parentesco estão rotos de hoje em deante. Quer que o mundo ignore os motivos? Ponho uma condição a esse sacrificio da minha parte!…

―Condições?!… interrompeu o intendente, ameaçando o sobrinho e Leonor com os olhos e com o gesto.

―Condições, sim! atalhou o mancebo friamente. Offereço-lhe o seu perdão, e a minha indifferença…

―Offereces-me o teu perdão? É admiravel! Que me importa o teu perdão?…

―Em troca de um acto de generosidade… forçada. Bem vê que lhe faço justiça, e que digo forçada, proseguiu Aubry, contendo-o, e dominando-o com a vista.

―Oh! exclamou Lagarde, rindo convulso e constrangido. A scena era para se ver no theatro francez! Enlouqueceste Armand?!…

―Não! redarguiu Aubry, cerrando os dentes e crescendo para elle indignado. Não enlouqueci! Mas ninguem até hoje me affrontou impunemente. Em tres dias o pae d’esta senhora ha de estar absolvido e solto…

―Ah! É de mais! accudiu o ministro affectando intrepidez, porém assustado. E se não estiver? póde acontecer que as tuas ordens não sejam cumpridas á risca. Se não estiver pódes dizer-me o que farás? Accommettes a policia, fuzilas o conselho de guerra, ou assaltas os moinhos de vento de Monsanto?!…

―Por Deus, senhor Lagarde, não tente a minha paciencia! bradou o official empallidecendo de colera, em quanto as pupillas scintillantes faiscavam mil ameaças. Se não estiver livre e absolvido… como lhe mando!… ouve? juro-lhe pela santa memoria de minha mãe, á qual deve só n’este momento a vida! que ámanhã o nome mais infame do imperio será o seu!…

O intendente fez-se branco e recuou, lendo na vista inflammada do sobrinho o odio e o despreso.

―Armand! exclamou balbuciando, renegas o teu sangue por estranhos?! Unes-te aos inimigos da tua patria contra mim!?…

―Os inimigos combatem-se com as armas na mão, não se salteam nos corredores da policia, pedindo-lhes a bolsa, ou a vida!… Fez-me córar de vergonha! A maior injuria, que podia irrogar-me, era suppor alguem que eu fosse cumplice de mercados tão vilões…

―És uma criança! Julgas o mundo pelos romances!…

―Basta! clamou o mancebo. Quer acaso convencer-me?! Se não obedecer ao que lhe disse, que é o desaggravo da minha honra ultrajada, não se admire do que eu fizer!…

―Do que fizeres! Ameaças?! Crês que te receio?… Em eu te desamparando cuidas que vales alguma cousa?! rugiu o intendente exasperado.

―Hei de valer sempre o que vale um nome honrado! Não preciso de mais. Repito. Tome bem sentido! Se o pae de D. Leonor não for solto em tres dias…

―Não é. Que mais?! atalhou o ministro, cruzando os braços.

―O general Junot e o conselho do governo saberão como se enriquece o intendente geral da policia! Vou revelar-lhes tudo. Então veremos.

―Tu! Meu sobrinho! exclamou Lagarde retrocedendo fulminado.

―Eu! Seu sobrinho por minha desgraça. Escolha agora.

Voltou-se depois para Leonor, que o dialogo tornára immovel, e acrescentou:

―Minha senhora, adeus. Levo d’aqui a admiração da sua formosura, e a magoa de ter sido causa innocente de suas lagrimas. Sei que me perdoa, e que me fica estimando. Não peço mais. Socegue. Mesmo sem o dote, o senhor Lagarde ha de servir seu pae… Elle sabe que eu costumo cumprir a minha palavra. Vamos, ajuntou apontando a saída ao ministro com um gesto imperioso. O luto entrou comnosco n’esta casa… É tempo de deixarmos que a alegria e a tranquillidade voltem.

E quasi obrigando Lagarde a retirar-se, lançou sobre Leonor um olhar de apaixonado enlevo, inclinou-se com um suspiro, e desappareceu.

―Manuel Coutinho, disse a donzella, erguendo a fronte de repente, depois de alguns momentos de silencio, ouviu tudo?…

―Tudo, redarguiu elle, que não se demorou em vir lançar-se de novo a seus pés.

―Então sabe a divida que hoje contrahi… que ambos contrahimos com Armand de Aubry. Espero que a vida d’elle lhe seja tão sagrada…

―Como a de um irmão, respondeu Manuel. É uma grande alma.

―Alviçaras! Alviçaras! Senhora D. Leonor! Gritou a voz do bispo do lado do jardim. Os inglezes estão a desembarcar. O nosso captiveiro pouco durará se Deus quizer.

E o prelado entrou afadigado e tremulo de jubilo no aposento, aonde os dois lhe abriam os braços não menos alvoroçados.