Tolda-se o tempo
Transportemo-nos um pouco antes dos successos esboçados nas paginas antecedentes aos paços da inquisição, situados no Rocio de Lisboa, aonde hoje ergue o seu frontão votado ás Musas o theatro de D. Maria II. Em algumas das salas e aposentos do antigo palacio dos Estáos, restaurado pelo marquez de Pombal, assentou Lagarde as repartições da policia geral do reino. Era justo! Ao lado do santo officio da fé o santo officio da usurpação. As duas inquisições fraternalmente hospedadas uma a par da outra não podiam offender-se do acaso que as unia! Soldados da guarda real da policia, corpo fundado e disciplinado pelo conde de Novion, emigrado francez que as victorias de Bonaparte e a invasão de 1807 lançaram outra vez nos braços dos seus compatriotas, guardavam as portas de fóra, ou de espadas em punho vigiavam os corredores e camaras, que precediam o quarto reservado aonde o proconsul se encerrava com os seus confidentes.
Deixemos passar esses vultos, que pisam os sobrados nas pontas dos pés, escorregando quasi como sombras. São rodas secundarias da machina. O olhar enviezado e inquieto, o rosto meio escondido na dobra do capote, e a humildade rasteira denunciam, sem necessidade de mais exame, os delatores obscuros, ou os agentes provocadores, destacados nas ruas e praças, ou nas tavernas para escutar e repetir os clamores de indignação das multidões. Esperemos que algum personagem de elevada gerarchia appareça, e nos introduza no gabinete discreto e só accessivel a poucos eleitos, aonde o magistrado estrangeiro conta as pulsações do coração de Portugal, e segue com a vista fria e penetrante os estremecimentos de cholera, ou de impaciencia do paiz, cançado da oppressão e envergonhado do silencio, em que a supporta ha sete mezes!
O general Junot, governador de Paris, entra pelo braço do conde da Ega, seguido de seus ajudantes de campo. O ministro Herman, encarregado dos negocios do reino e da fazenda, ex-commissario imperial, não se demora atraz d’elle. Lunyt, secretario d’estado da marinha e da guerra já os tinha precedido. A concorrencia de taes pessoas inculca acontecimento notavel, e é de crer que o conselho se não separe sem que alguma providencia venha esclarecer o segredo dos ultimos dias e dos ultimos sucessos. Quem nos abrirá caminho até ao famoso reposteiro, que deante da entrada da sala vedada representa para os profanos o papel de véu de Pythagoras? As sentinellas, immoveis como estatuas, velam fieis ás ordens recebidas. Os porteiros, em ar protector, ou mysterioso, despedem os pretendentes e os importunos. Um cordão de empregados corta á curiosidade todos os passos. Gritou-se, porém ás armas. O uniforme de um official superior reluz na extremidade de extenso corredor. Os subalternos inclinam-se profundamente, e respondem em voz submissa ás perguntas imperiosas, que lhes dirige. Acompanhemos este iniciado. É o capitão de mar e guerra Magendie, commandante da marinha. Seguindo-o, temos a certeza de não encontrar obstaculos.
Quando o recem-chegado franziu o reposteiro de panno escarlate orlado de branco, no meio do qual campêa uma aguia azul colossal, e empurrou de leve um dos batentes da porta, a discussão já se havia travado, segundo parecia, menos placida, do que promettiam os annos e auctoridade dos diversos membros do governo, sentados á roda da comprida mesa, coberta de couro, e cingida até ao chão de um rodapé de tela encarnada. A mesa occupava o centro da casa. Junot, facil de conhecer pela estatura, boa presença, e garbo do porte, achava-se em pé junto da cabeceira, com o rosto inflammado, e a mão no punho da espada. Lagarde, á sua esquerda, analyzava com o olhar prescrutador todas as physionomias, traçando com a penna sobre uma folha de papel algumas palavras soltas. Pallido, ou antes livido, retratava no rosto a astucia unida á expressão repulsiva de um cynismo cruel e glacial.
Herman, á direita do general em chefe, sereno, aprazivel, e delicado, com um lapis entre os dedos enfeitados de anneis, justificava ao primeiro volver de olhos a reputação de melindre e de primor, merecida desde que se estreára na carreira publica exercendo as funcções de consul em Portugal. Vestia em todo o apuro da moda do seu tempo. Casaca de lemiste talhada á franceza com botões de metal e golla alta, collete branco aberto, que deixava sobresaír a finissima cambraia da camisa e da tira engommadas em pregas miudissimas, calções de seda, meia a estalar na perna, sapatos e fivelas de ouro cravejadas. Um espadim curto de bainha dourada pendia-lhe da cinta, e uma caixa de rapé, mais preciosa pelo lavor, do que pela qualidade, aberta a seu lado, e consultada a miudo pelos dedos distrahidos de Junot, recommendava-se pela admiravel miniatura, cercada de aljofres, que lhe ornava a tampa.
O conde da Ega, cuja intimidade no quartel general do largo do Quintella as murmurações populares explicavam de um modo pouco airoso, e que dias depois havia de substituir o Principal Castro na pasta da justiça, escutava de pé, e com mostras de não pequeno sobresalto, talvez provocado pelo desassocego da consciencia, a leitura nasal, lenta, e accentuada, que Lunyt secretario de estado continuava sem mudar de tom, estudando de vez em quando por baixo dos oculos de ouro o effeito produzido no animo dos ouvintes.
A entrada de Magendie, accolhida por uma exclamação de alegria do duque de Abrantes, por uma cortezia de Herman entre dois sorrisos, e por um gesto de urbanidade de Lagarde, foi como o signal da explosão até ahi contida das paixões e receios mal reprimidos. Todos diriam que o Conselho aguardava a sua chegada para arrancar a mascara, que o suffocava, dando largas á expressão sincera dos verdadeiros sentimentos.
―Bem vindo, capitão Magendie! A sua demora fazia-nos temer que faltasse. O aviso chegou-lhe tarde?…
―Não foi o aviso, general! Mas a esquadra de sir Carlos Cotton appareceu outra vez á barra, e julguei prudente ir a bordo das fragatas Carlota e Benjamin…
―E então?! interrompeu Lunyt, pondo de parte o papel que lia, e encarando o capitão de mar e guerra.
―Fosquinhas por ora! respondeu este encolhendo os hombros. Entretanto…
―Podem encobrir planos de hostilidade? atalhou Herman, sorvendo com pausa uma pitada, e dispersando depois com um piparote os grãos que tinham saltado sobre a tira alvissima da camisa.
―É possivel. Os inglezes animados pela sublevação dos hespanhoes, meditam desembarques na peninsula, accudiu Lagarde em ar grave.
―Veremos se em terra são felizes como no mar! observou o conde da Ega.
―Mesmo no mar, redarguiu Magendie, espero que não hão de forçar-nos a barra sem deixarem nos escolhos um par de navios. Temos de observação entre as torres a fragata Graça Phenix e mais dois vasos de alto bordo, artilhados, mas incapazes de navegar; em Belem estão fundeadas tres charruas…
―Bem! Bem! tornou Junot. Duvido que rocem as barbas pela bôcca de nossos canhões, Magendie! Oxalá que todas as tempestades nos viessem só do mar… O peior de tudo, senhores, é que o chão treme debaixo dos pés, e…
―Que a traição vela á nossa cabeceira? Notou Lunyt, limpando os vidros dos oculos, e falando no mesmo tom lento e nasal, com que lia.
―É verdade, Lagarde! Conspira-se, trama-se, e não nos dizieis nada!…
―Para que? Quando uma nação inteira está conjurada, general, a policia passa, vê, e dissimula. Prisões e devassas, de que serviriam, senão de a irritar mais? Descobrir o que ella quer, tirar-lhe os pretextos, e escolher a occasião de ferir a muitos de uma vez pelo terror do mesmo golpe, eis o segredo dos que sabem dominar.
―Sim! Bem sei! É a theoria de Fouchet, do duque de Otranto!…
―E para este caso a unica aproveitavel. O que diria o sr. conde da Ega, tão nosso amigo…
―Eu!… Pois eu!…
―Se lhe mettessemos no castello, ou nas torres dez, ou doze parentes de toga, e de espada, que estão conspirando a esta hora mesmo contra o governo de sua magestade o imperador e rei?!… proseguiu o intendente com o seu riso agudo e estridulo, similhante ao som do córte de uma serra.
―Ah! Os parentes do sr. conde de Ega tambem são contra nós?!… notou Junot vagarosamente.
―E os da senhora condessa ainda mais!… observou Lagarde trespassando o general com a vista afiada e ironica.
Uma nuvem escureceu a fronte do duque de Abrantes. Aquella seta viera cravar-se-lhe direita no peito. O guerreiro destemido, coroado tantas vezes pela victoria no meio de proezas heroicas, era accusado de excessiva sensibilidade perante o bello sexo; e a formosa condessa da Ega, segundo se dizia, graças a seus enlevos e encantos, tinha conseguido tornal-o escravo do menor de seus caprichos.
O general inclinou a cabeça, correu os dedos pela fronte annuviada, como se quizesse saccudir com o gesto pensamentos importunos, e, sem responder á allusão, levantou-se, e deu alguns passos pela casa, talvez para ter tempo de se assenhorear de si, vencendo a commoção. Os olhos dos outros vogaes do conselho fitaram-se no semblante do conde da Ega por um movimento irresistivel. Sem resultado! Ayres de Saldanha, por calculo, ou por ignorancia, não denunciava na physionomia, senão a indifferença apathica, prova real da mais virtuosa confiança. Herman e Lagarde trocaram um sorriso fino, que não abonava a sua credulidade na innocencia apparente do fidalgo portuguez.
N’este momento a mão de um ajudante de ordens arredou as prégas do pesado reposteiro, e sem proferir palavra entregou a Junot dois maços cuidadosamente lacrados. O duque recebeu-os tambem calado, e veiu sentar-se na ampla cadeira de braços, d’onde se erguêra minutos antes. Emquanto rompia o sobrescripto do primeiro, e corria os olhos pelo volumoso officio, era facil notar no seu rosto, de ordinario sereno e intrepido, a apprehensão causada por noticias desagradaveis. Antes de passar á leitura do segundo maço, e de lhe rasgar a capa, os que o conheciam assustaram-se, apercebendo-se de certa hesitação momentanea, notavel em caracter tão firme, porque seguramente inculcava mais do que sobresalto, ou torvação. Ao mesmo tempo recebia Lagarde um papel fechado, que não lhe causava menor cuidado, do que os dois officios ao general. Houve um minuto, ou dois de profundo e ancioso silencio.
―Nome de Deus! exclamou o duque de Abrantes incapaz de conter as paixões, e amarrotando irado o papel. Verifica-se o que sempre prognostiquei. Não me quizeram attender, decidiram tudo em Paris sem entender nada, e agora cá estamos nós para carregar com o peso de todas as culpas!… Quantas vezes os avisei e lhes disse a verdade! Deram finalmente aos inglezes o campo de batalha porque tanto suspiravam; não contentes fizeram suas alliadas duas nações inteiras. Veremos agora como desatam o nó!
E recostando os cotovellos na mesa, e a cabeça entre as mãos, sem fazer caso do espanto excitado pelas suas phrases, abysmou-se em sombria meditação.
―O que é? O que succedeu?… perguntava o conde da Ega a Herman.
―Pouco viverá quem o não souber! redarguiu o malicioso diplomata, encolhendo os hombros. Rapaziadas dos portuguezes, aposto!…
―Mais do que rapaziadas, senhor Herman! atalhou o intendente geral da policia, que de livido se tornára verde, cujas pupillas chammejavam, cujo sorriso era uma contorsão diabolica. Estamos sobre um vulcão.
―Apagado! replicou o ministro do reino inalteravel. Esta gente de Lisboa não é para emprezas altas. Queixa-se com saudades, fala, ameaça, mas por fim faz-se d’ella o que se quer. Em lhes não tocando nos seus lausperennes, nos seus frades, e nas suas procissões, todos andam mansos como borregos… Estes não me mettem medo a mim; oxalá!…
―Medo! accudiu Junot, levantando-se de um pulo, com o rosto incendido, e os olhos scintillantes! Medo! Quem fala em medo!? Para enxotar como um rebanho de ovelhas toda essa plebe, toda essa espuma… basta o meu cavallo e o meu chicote!…
―Nem tanto, senhor duque! observou Magendie. Os portuguezes são homens e soldados. Mais de uma vez o têem provado. Perguntae aos hespanhoes… e ao senhor conde da Ega, que hão de conhecel-os.
Herman sorriu-se. O conde parecia petreficado. A injuria do general em chefe feria-o no rosto como golpe de mão aberta. O coração indignado convidava-o a repellil-a, porém o servilismo tapava-lhe a bôcca. Não acertava com o que fizesse. Calado deshonrava-se; falando arriscava-se… Calou-se!
Junot caíu depressa em si. O seu animo era generoso, embora cedesse aos impetos do sangue, facil de inflammar, provocando paroxismos de cholera, que os seus intimos deploravam, porque frisavam quasi por loucura frenetica. As palavras de Magendie advertiram-n’o. Recuperando-se da embriaguez da raiva, volveu ás maneiras cultas e urbanas, que tantas affeições lhe grangeavam, mesmo entre os adversarios.
―Senhor capitão Magendie, a plebe não é a nação. Os portuguezes são para muito; pena é que não os soubessem aproveitar, em quanto era tempo!… O erro não o commetti eu. Este povo é bom, generoso, e paciente… Podiamos, deviamos ajudal-o a regenerar-se… Preferimos tractal-o como vencido, e fazer d’elle um inimigo!… Paciencia! Colheremos os fructos que semeámos. Lagarde! Herman! Magendie! Vamos ter a guerra!… O segundo acto da tragedia começa em Portugal. A Hespanha deu-nos o primeiro… Loison escapou milagrosamente aos montanhezes sublevados no Marão, em Amarante, e em Chaves!…
―Se escapou é o essencial! Os bandos populares sem cabeça depressa se dispersam. Observou Lagarde.
―É verdade. Mas o chefe existe. Manuel Gomes de Sepulveda acclamou em Traz-os-Montes o principe regente…
―Um velho de mais de oitenta annos, tropego, e quasi cego!?… accudiu Lunyt sorrindo.
―Acrescentae, porém, velho mas habil general, valente, e adorado!… As provincias do norte estão, ou estarão todas em armas dentro de oito dias. Miranda, Villa Real, Moncorvo, e Guimarães já o seguiram, ou vão seguil-o…
―Temos o Porto, e em quanto for nosso, facilmente daremos a mão aos nossos exercitos de Hespanha, interrompeu Herman.
―O Porto!… Lêde!… E passando o officio ao ministro do reino, Junot, em quanto este o lia a meia voz aos collegas, passeiava agitado, medindo a sala em todo o comprimento.
―O Porto? É tarde! já não lhe accudimos. Hoje, ou ámanhã subleva-se, e dá o exemplo. Coimbra não se demora. Contae com ella insurgida. Não nos lisongeemos com illusões…
―O mal, comtudo, não é irremediavel! Sejamos fortes! exclamou Magendie. As nossas tropas devem ter vencido em Hespanha, e…
―As nossas tropas não venceram, foram vencidas! Tornou o general em chefe sombrio, e mordendo os beiços. A fortuna vira-nos as costas. As divisões aguerridas recuam sobre o Ebro. O rei José saíu de Madrid. Estamos sós e sem retirada no meio de um reino irritado e adverso…
―Ah! disse Herman empallidecendo. N’esse caso a partida é arriscada. Não a julgo, porém, perdida.
―Nem eu! Mas contemos um pouco, se nos apraz, com os inglezes. Em Gibraltar acha-se sir Hew Dalrymple com o corpo do general Spenser. Em Cork, na Irlanda, vão embarcar nove mil soldados. A esquadra de sir Charles Cotton anda cruzando deante da foz do Douro, e das bahias do Tejo e do Mondego. De um instante para outro podemos ter de pelejar com o povo e com as tropas do rei George… N’esse caso!…
―Ameaça-nos a capitulação de Dupont em Bailen?!… accudiu Lagarde, batendo com o punho cerrado sobre a mesa. Oh!…
―Nunca!… Pelo menos em quanto eu viver! exclamou Junot com um gesto admiravel de firmeza. Luctaremos! A derrota não é menos gloriosa, que o triumpho, quando o campo de batalha proclama o heroismo dos vencidos… Poderemos ao menos contar com a obediencia de Lisboa? A capital em nosso poder póde ser ao mesmo tempo segura base de operações, e precioso penhor para o infortunio. Lagarde! Chegou o momento. Respondeis pela tranquillidade de Lisboa?…
Houve um momento de silencio. O intendente geral da policia, atalhado, olhava para o papel, que lhe tinham trazido, e conservava ainda aberto, e para o general, e hesitava.
―Que nova desgraça nos ameaça!? accudiu o duque arrebatado. Hoje é o dia das fatalidades? Falae! Estou preparado para tudo. Que dizeis de Lisboa?…
―Que respondo por ella, como por mim!… balbuciou Lagarde tremulo.
Bem! Não é preciso mais. Dás-nos a alavanca de Archimedes!…
―Só depois de ámanhã em deante!… concluiu o intendente engasgado, e convulso.
―Ah! E hoje porque não?! exclamou Junot, que os revezes pareciam reanimar á medida que se accumulavam. Nome de Deus! Não sois medroso. Conheço-vos! Esse papel trouxe-vos a cabeça de Medusa? Que segredo terrivel encerra? Vamos! Vencei a consternação, e dizei-nos o que ha. O peior perigo, é o perigo encoberto. Quero saber!
E o duque de Abrantes assentou-se com a fronte erguida, os olhos brilhantes, e um sorriso intrepido nos labios. Era assim que elle costumava affrontar a morte nas batalhas.
Lagarde principiou em voz baixa a leitura. Era o plano de uma revolução traçada para rebentar no dia seguinte depois da procissão do Corpo de Deus.
Os auctores d’este commettimento, todos membros do Conselho Conservador de Lisboa, tinham sido denunciados á policia em differentes occasiões, mas poupados como conspiradores theoricos e inoffensivos. A ousadia do trama excedia, porém, d’esta vez quanto podia prever-se de audaz e decidido. O rompimento havia de começar de tarde, ás seis horas, muito depois de concluida a festa religiosa. Junot devia ser preso no caminho do palacio de Anadia para o Rato, as guardas do Rocio, do Terreiro do Paço, de S. Domingos, de Santa Clara, e do quartel general, atacadas e desarmadas, e o Castello rendido por assalto, ou por algum artificio de guerra. As tropas francezas privadas do seu chefe, e surprehendidas, seriam obrigadas a depor as armas em virtude das ordens dictadas ao duque de Abrantes pelos seus carcereiros. O povo e os soldados portuguezes coadjuvariam a revolta occupando as ruas e as praças.
O assombro dos vogaes do governo durante a communicação, que acabâmos de resumir, custaria a descrever. A gravidade das physionomias tornou-se mesmo tão solemne, que ia degenerando quasi em comica. O unico ouvinte desassombrado e de sangue frio era o duque de Abrantes. A idéa de se ver colhido ao anoitecer no seu transito costumado pelos cumplices do Conselho Conservador, affigurou-se-lhe por tal modo absurda, que, recostado no espaldar da cadeira, desatou o riso em frouxos, suspendendo a leitura, e desengatilhando de sua expressão severa o rosto dos que a sua hilaridade não admirava menos, do que o plano de sublevação forjado para a capital.
―Admiravel! Sublime!… clamava Junot estorcendo-se entre risadas. Parece-me que os estou vendo d’aqui a esses illustres conspiradores de rabicho e samarra, decidindo á pluralidade de votos o theor das ordens, que hei de escrever depois de prisioneiro!… Mas é um entremez puro o que esta boa gente imaginou: art.º 1.º O general Junot será apprehendido, e ao mesmo tempo as guardas do Terreiro do Paço e do Rocio!… art.º 2.º (porque o não puzeram tambem?) O presente decreto será registado nos livros da chancellaria da Junta Provisoria! Excellente! Deixae-me rir, Lagarde. Sois um homem unico para desterrar tristezas.
Herman, Lunyt, e o intendente olhavam uns para os outros, pasmados, e não sabiam se deviam conservar-se serios, ou imitar o general. Magendie, militar e resoluto, ria a ponto de lhe saltarem as lagrimas dos olhos. O plano peccava pela ingenuidade. Os innocentes conspiradores fundavam todo o edificio de suas esperanças na prisão de Junot, e essa prisão era justamente o que lhes esquecêra assegurar. O duque de Abrantes, cujo valor todos respeitavam, os seus ajudantes, e a escolta de cavallaria que sempre o acompanhava, não cairiam de leve em uma cilada de poucos homens, e para o esperar em grande numero, vigiadas como estavam as ruas, parecia duvidoso que meia hora depois não se achassem recolhidos na cadeia os Scevolas incumbidos d’este prologo essencial no grande drama da restauração da patria.
―Herman! O vosso voto sobre esta farça que terrificou Lagarde!…
―O plano é fraco, porém a intenção…
―De intenções, boas, más, e pessimas está calçado o inferno! Tendes acaso receio de me vêr preso no meio das becas dos conspiradores, suando medo por todos os poros, e ordenando aos meus valentes soldados que entreguem as espadas e espingardas aos milicianos de Lisboa!?… Que gente admiravel a do vosso Conselho Conservador, Lagarde! Respeitae-os como se respeita a innocencia. Conjurados assim inventam-se, quando se não acham, e guardam-se debaixo de redomas de vidro… Art.º 1.º O general Junot será apprehendido! Nada mais! Que bella concisão spartana! Ah! Ah!… Quem serve de espirito santo a este cenaculo? Algum macrobio? Alguma reliquia do tempo do marquez de Pombal, aposto?… A conspiração dá ares de quinhentista. Foi desenterrada de certo de algum archivo!…
―Informam-me que José de Seabra no principio déra alguns conselhos, mas que hoje…
―Não quer saber d’elles para nada!?… É evidente! José de Seabra, duas vezes ministro de estado, sisudo, e espirituoso, morria de vergonha se visse o seu nome ligado a similhante satyra do senso commum… Art.º 1.º O general Junot!… Desculpem, mas é incrivel! Os desembargadores e os padres de Lisboa cuidam que um general francez é algum passaro raro, que se apanha e mette na gaiola para o ensinar a cantar o hymno nacional!?… Lagarde! Prohibo-vos de tocar nos veneraveis juizes, fidalgos, frades, abbades e negociantes, de que se compõe este bemaventurado Conselho. Dae graças a Deus pela sua existencia, e não os incommodeis. D’alli não vem de certo mal! Oxalá que Sepulveda fizesse parte d’elle, esperando pela minha prisão para se sublevar. O Porto ainda poderia salvar-se!
―Mas, general, o dia de ámanhã parece-me critico, observou o intendente, que o riso e os motejos do duque tinham confortado pouco. Não é só gente da capital a que sae ás ruas. Os arrabaldes e o Ribatejo despovoam-se, e talvez fosse mais prudente prohibir a procissão, e prender por algumas horas os cabeças conhecidos dos arruidos populares…
―Pela gloria do imperador! Enlouqueceis, senhor Lagarde?!… Assustam-vos tanto os planos ridiculos de uns poucos de dementes, que vos não envergonha o argumento de fraqueza, que dariamos, escondendo-nos com medo dos frades e das irmandades de Lisboa? A procissão ha de saír. Nada de prisões! Os nossos soldados trazem polvora e bala nas patronas. É quanto basta!… Meus senhores, hoje, o general Junot, depois das seis horas da tarde sae do palacio da Anadia para o Rato, e vae ser apprehendido. Ah! Ah! Está encerrado o conselho. Herman enfeitae-vos bem ámanhã. Tereis de pegar a uma das varas do palio. Magendie não deixeis apprehender os nossos navios. Lagarde, mandae saber ao hospital se ha logares vagos na casa dos orates; os vossos amigos do Conselho Conservador acabam todos lá. Lunyt, vinde commigo; tenho que vos communicar… isto é se não receiais que o general Junot seja apprehendido no caminho para o largo do Quintella. Ah! Ah!… Senhor conde da Ega acceita um logar na minha carruagem?… Note que lhe offereço um posto perigoso.
E o duque saíu precedido por Magendie e acompanhado do conde e do secretario de estado da guerra e da marinha. Herman e Lagarde, que ficaram atraz, olharam um para o outro, interrogando-se com a vista e com o gesto.
―O que devo fazer? perguntou o intendente.
―Nada. É o melhor!
―Mas!…
―Meu querido senhor Lagarde, o homem que ha de prender Junot… não está de certo no Conselho Conservador de Lisboa! Redarguiu o ministro rindo. Socegue!
Momentos depois o intendente tocava a campainha, e por ordem sua um porteiro introduzia no gabinete o sargento Cabrinha e o seu assessor Gaspar Preto, por alcunha o Sapo.
Saberemos a seu tempo o que alli vinham fazer aquellas duas boas almas.