(Copiado do Natural)

Ao meu Henrique e a Beldemonio, seu amigo.

I.

Ao cair da tarde, o Thomé da Eira entrava em casa, cançado, esfalfado de andar um dia inteiro a mourejar no campo.

―Meus peccados, boa tarde!―dizia elle para a mulher, com um sorriso a affectar seriedade.

Vinha logo o pequeno, o Manuel, de mãos postas pedindo-lhe a benção.

―Deus te abençoe.

―Pae, olhe que o «Sultão»… ia a dizer o pequeno.

―Bem sei! atalhava logo o Thomé.―O «Sultão» é um maroto e tu és outro.

E emquanto procurava no bolso da jaqueta a sua bella navalha de meia-lua, que lhe custara um pinto havia bons quinze annos, e abria a gaveta do pão, o Thomé punha-se a fazer de interesseiro comsigo mesmo, resmungando alto p’ra que a mulher o ouvisse:

―É que por este caminho não tenho um dia descançado… Nem uma hora…

Vinha a mulher com as azeitonas, com o queijo, sem dar palavra.

―…Pois vamos já que já era tempo… Porque p’ra mim ha de chegar… A modos que vou já cançando…

Mas o Thomé não era homem que dissesse estas coisas de coração. Pareciam-lhe longos, interminaveis, os aborrecidos domingos que passava sem ir campos fóra, madrugador como um melro.

―Uma aquella como outra qualquer! dizia o bom do Thomé encolhendo os hombros, como quem está desgostoso com um genio assim.

Partiu uma ampla fatia, um naco de queijo muito branco, do leite da sua cabrada, e veiu sentar-se, consolado, ao fundo da larga escada de pedra que dava para a rua, arregaçado, em mangas de camisa, muito á vontade.

Costume velho do Thomé:―mal se sentava, mastigando o «boccado», dizia logo para o filho:

―Ouves, Manuel? Bota cá fóra o «Sultão».

O rapazito corria o caravelho de uma pequena porta lateral, que rangia nos gonzos ao impulso dos seus bracitos roliços, e punha-se a pular de contente, dizendo cá da rua:

―«Sultão»! Sae cá p’ra fóra, «Sultão»!

No fundo negro do pequeno cortelho, na moldura rectangular da porta baixa, destacava-se então a cabecita parda de um jumento, orelhas em riste, grandes olhos de uma tristeza perpetua, n’um movimento moroso de palpebras pestanudas…

E ali se quedava parado, absorto, muito bem posto nas suas pequeninas pernas delgadas, a olhar o Thomé que o chamava,―um grande riso de alegria nas feições amorenadas, contente de ver o seu «Sultão».

Mas o pequeno jumento não avançava um passo, divertindo-se em arreliar o Thomé, fitando-o com um ar estagnado. Altivo na sua nobre linha de quadrupede de boa raça, alguem lhe poderia lêr no olhar, mole e impassivel, o frio, gelado despreso a que parecia votar o dono…

Mas era áquillo mesmo que o bom do lavrador achava graça. E punha-se então a fallar muito serio, entre resignado e cortez, para o pequeno e desdenhoso jumento―o pão e o queijo esquecidos n’uma das mãos, na outra a navalha de meia-lua:

―Então, «Sultão», não vens?

―Não! parecia responder-lhe o animal. E abstracto, continuava a envolvel-o no seu olhar profundo. A quebrar a harmonia d’aquella immobilidade de estatua, apenas de quando em quando uma pequenina patada na soleira, zap!

―Zangado, «Sultão»? perguntava o lavrador.―De mal comigo?

E prestes voltava a cara para a outra banda, para se rir á vontade…―que não fosse vel-o o «Sultão»… Mettia entre dentes um pedacito de queijo, logo uma codea de pão, e fazendo umas grandes rugas na testa, de quem começa a zangar-se, voltava-se então muito serio:

―Ficas ahi, «Sultão»? Já não és meu amigo?

O gerico abatia um pouco as orelhas, inclinava o pescoço, parece que fazendo-se humilde…

―Então se és, anda d’ahi. Olha…―E mostrava um pedacito de pão.―P’ra ti se vieres…

O «Sultão» dava tres passos, e ficava fóra do cortelho. E por se vingar, o Thomé carregava o semblante n’uma seriedade muito pesada, e erguendo o rosto iracundo chamava-lhe interesseiro, maroto, affirmando que já lhe não dava o pão. E desfechando-lhe emfim a ameaça de o vender a um cigano, entrava a tratal-o por senhor―sôr «Sultão»…

Mas o pequeno jumento ia andando muito devagar… andando… orelhas baixas, pescoço cahido, a modo de arrependido, parece que pedindo perdão da arrelia.

Nervoso, sapateando, o Thomé voltava a cara para a outra banda, a rir como um perdido.

―Diabo do gerico! diabo do ratão! Capaz é elle de fazer rir as pedras, o mariola!―E tossia de engasgado, uma migalhita de queijo na guela.

No emtanto, o «Sultão» ia avançando, muito ronceiro, até que tocava com o focinho, levemente, nos joelhos do lavrador. O Thomé sacudia-o:

―Sae-te p’ra lá! dizia elle muito amuado, sem se voltar.―Cuidas talvez que te não conheço, cuidas? Já te não quero, vae-te!

Mas como que irreflectidamente, fingindo não querer, chegava-lhe ao focinho um pedacito do pão, o melhor da fatia. «Sultão» lançava um olhar obliquo, entre surrateiro e medroso, levantava cautelosamente o beiço superior, a tremer, e roubava-lh’o da mão.

Pazes feitas! Era então rir a perder, n’umas casquinadas agudas, muito estridulas.

―Credo, homem! dizia de cima, da janella, a sr.a Josefa.―Até pareces doido!

―Você assim rouba seu dono? Diga! Você assim rouba seu dono? perguntava o Thomé, n’uns grandes gestos.―Vamos que eu lhe não queria dar da merenda? Ladrão, de mais a mais!… Ora bem! agora brinque.

Era precisamente o que o Thomé queria:―ver o «Sultão» a brincar.

…Nada, com effeito, meus amigos, que mais divertisse o bom do lavrador, e melhor o indemnizasse d’aquellas fainas laboriosas que lhe consummiam os dias, imperturbavelmente, perpetuamente, sob soes causticantes e chuvas torrenciaes.

Por isso, era de ver como elle ria, com uma boa vontade deliciosa, das «partidas» e «diabruras» do «Sultão»! Ás vezes, o pequeno jumento, ferido não sei por que vespa invisivel, despedia sem mais nem menos n’uma carreira aberta, focinho entre as pernas deanteiras, agitando a cauda, por aquella rua fóra. Rompia de toda a banda n’um alarido o rancho pacifico das galinhas, que já no ar andavam como doidas, cacarejando, como se um pé de vento as levasse. Accudia gente aos postigos, ás portas, ás janellas, a ver a polvorosa; e subito se inundava a rua de rapazes, rotos, descalços, alguns quasi nús, correndo atraz do burro, gritando-lhe, acenando-lhe, espantando-o―como se o mesmo vento de folia os houvesse varrido a todos, varrendo a propria rua… E um lá ia a terra, e sobre esse passavam os outros, e sobre todos voava o «Sultão», apupado, perseguido, acclamado, na malta espavorida dos inimigos…

―«Sultão»! eh lá! «Sultão»!

Subito, como se lhe estalasse a corda, o animal estacava, e logo de volta d’elle postava-se a rapaziada, mas n’um alor de nova fuga, não lhe desse na bôlha atacal-os… E abriam alas de repente, quando elle, tomado de novo accesso, voava para as bandas do dono, que por se não deixar atropellar investia com o «Sultão» de braços abertos, o que era, já se vê, um modo de o abraçar, fingindo medo. E vinham as gargalhadas estridulas, os rogos para que pozesse treguas, as supplicas para que se accommodasse, recuando o lavrador até ao ultimo degrau da escada, onde se deixava cair,―derrotado!

―P’ra lá, «Sultão»! p’ra lá! fazia então o Thomé, oppondo-lhe os pés, desviando-o, apoiando-se nos cotovelos, muito inclinado para traz, a rir como um perdido.

Então o pequeno jumento estacava, offegante. Mas prestes rompia a girandola dos coices, em que era eximio, sacudindo muito as patas, cauda no ar, muito direita, ao mesmo tempo que o Thomé solicito dava aos rapazes o aviso de se arredarem―«porque era doido, aquelle demonio»!…

Outras vezes, parece que variando de tactica, entrava de seguir muito cauteloso, n’um ronceirismo perfido, como um borrego ou como um cão, certa mulher que passava. Até que lá ia uma focinhada, e logo após os saltos do costume, respondendo com uma ameaça de pinotes á surpresa da viandante.

―Dê, tia Luiza! bata n’esse maroto! fazia de lá o Thomé, com ares de zangado. E depois, batendo o pé, pedindo que lhe dessem uma verdasca:―«Sultão»! venha já p’r’aqui! intimava.

E se encontrava um cão? Se encontrava um cão, ia logo direito a elle, muito de vagar, cauda caida, orelhas murchas, n’um cumprimento humilde de focinho. O cão regougava, desconfiado, entreabrindo a dentuça, preparando a sua dentada. Não dava o «Sultão» signaes de medo, e humilde proseguia para o outro, propondo paz. Mas ao primeiro latido, recuava um passo, espertando da sua indolencia passiva; e de espinha arqueada ganhava o terreno perdido―fitando impassivel o cão… O bruto formava então o salto, regougando forte, o pêllo eriçado; e ao investir para a primeira dentada, salvava-o de um pulo o «Sultão», evitando-o, até que por compaixão lhe dava um pequenino coice, «mais feitio que outra coisa», pondo em fuga o mastim, corrido, ganindo, vencido:

―Eh! valente! gritava-lhe então o Thomé.

E com duas palmadas na anca, espantava-o emfim para o cortelho, dizendo ao correr a caravelha:

―Não ha dinheiro que te pague, assim me Deus salve!

E comido o caldo verde da ceia, nunca o Thomé da Eira ia para a cama sem primeiro descer a vêr o «Sultão»,―de candeia na mão esquerda, e na direita, contra o sovaco, a bella quarta do grão, acogulada.

Muitas vezes acontecia esquecer-se o Thomé a vel-o comer, de candeia attenta, encostado á mangedoira, sorrindo: e, de cima, a sr.a Josefa tinha de intervir então, gritando-lhe pelas frinchas do sobrado:

―Thomé, vê se te vens deitar, meu pasmado! olha que são horas.

E piamente, como fanatico, achava verosimil a lenda da burra que fallou,―historia que uma tarde, passando, o abbade lhe contara. Tanto que mais de uma vez, dando ao burro as boas-noites, extranhou com certo desgosto que o «Sultão» lhe não respondesse:

―Boas noites!

Mas o demonio, que sempre as arma, armou-lh’a tambem um dia! Foi ao cortelho, de manhã cedo, e não encontrou o burro. Ficou parvo! Poz-se a mirar, espantado, a loja que lhe pareceu enorme, e além de enorme―gelada…

―Ó Josefa! Josefa! entrou de gritar da rua.―Ó Josefa!

A mulher assomou á janella, sobresaltada.

―Queres apostar que me roubaram o burro, ó mulher?!

―Que te roubaram o quê? fez a sr.a Josefa, muito attonita.

―O burro, o «Sultão»! Vem cá ver que m’o roubaram!

E como ao tempo acudira já o Manoel, em camisa, descalço, romperam todos tres na gritaria, defronte do cortelho vazio:

―Á d’el-rei! Á d’el-rei! Á d’el-rei!

Até que o regedor, que era compadre, intervindo estremunhado, poz na peugada do burro, mais dos larapios, os cabos que compareceram.

Mas em vão! Um a um foram regressando, pelo dia adeante, e desfechando ao peito abatido do Thomé a negra e vazia palavra:

―Nada!…

 

II.

Dois annos depois. Tarde d’agosto. Ao longe, fechando o horizonte que a eira dominava, as arestas dos montes quebravam-se n’uma sombra egual, e embaciavam ainda o poente as suaves, brandas pulverisações doiradas da ultima luz do sol. Riscos vermelhos de nuvens, como grandes vergas de ferro levadas ao rubro, destacavam immoveis n’um fundo verde-mar, esvaecido e meigo, raiado de listrões de uma coloração leve de laranja. Pequenos algodões transparentes, com alvuras de neve, cortavam aqui e além, alegremente, a monotonia profunda do azul. N’um deslado, sob os castanheiros proximos, surgiam os telhados da aldeia, a torre branca da igreja, as paredes caiadas da escola.

A vasta eira commum, levemente accidentada, apresentava áquella hora o aspecto tranquillo e de paz de uma grande officina em repouso. Poucas «mêdas», iam no fim as colheitas: mais uma semana, duas quando muito, e estaria tudo recolhido. Já sobre a palha das «parvas» ou ao sopé das «mêdas» altas, entre os utensilios da trilha e a creançada estridula que brincava, os da lavoura descançavam―vermelhos da soalheira intensa de todo o dia, alguns deitados, em mangas de camisa, peito nú, arregaçados os braços musculosos, n’uma prostração regalada de matilha que alfim tem a sua hora de socego, após um dia de caçada. Parecem prostrados da fadiga os proprios malhos, os trilhos, as pás, os «baleios» que levaram todo o santo dia varrendo o chão em volta das «parvas». E aqui e ali, dando uma sensação agradavel de fartura, perfilam-se os altos saccos no meio das rasas, extravasando de grão. Além, gente em mangas de camisa, ao redor de um grande montão de palha triturada, vae «limpando»―visto que sopra um «ventinho». E sente-se sobre as pás a chuva do grão, ao mesmo tempo que a palha, voando, faz monte da outra banda, e os «baleios», em mãos de mulheres, não cessam de arrebanhar o grão, varrendo em roda n’um afan… Em certo ponto, carros vasios; um além, de altissimas «angarellas», vae-se enchendo de palha; emquanto outros, atulhados de saccos, em rimas entre as cancellas mais baixas, estridulamente chiando abalam para as tulhas, levados pelos bois gigantes.

Eiras além, livres dos trilhos que ficavam em cima da palha, levas de bois caminhavam vagarosamente, as largas orelhas pendentes, caudas oscilantes afagando nas ancas espaçosas o luzidio pêllo. E lá vão encosta abaixo, roçando pelos troncos asperos dos castanheiros a enorme corpolencia, fartar o largo bandulho á serena agua das ribeiras, sorvendo vagarosamente, impando a cada sorvo, pesadamente, monotonamente, parece que insaciaveis no meio da agua em que se atolam, submissa…

Ao fundo da eira, rente aos castanheiros escuros, um rancho de mulheres cantava alegremente, em côro. Acabara de ensacar-se o ultimo grão da farta colheita do Thomé da Eira.

―Colheita rica, sim senhor! vinham dizer-lhe os visinhos.―A primeira da aldeia!

―Qual? isso sim! vão vocês vêr a tulha. Muita palha, é que vocês hão de dizer, muita palha e pouco grão…

E muito azafamado, sem prosapias de maioral nem geitos de soberba, as mangas arregaçadas pelos cotovelos, O Thomé ia e vinha, dando ordens, repetindo avisos, distribuindo aqui e além as ultimas tarefas.

―Ahi vae um sacco, ó tu! É p’r’as «rabeiras». Que não fique nem um grão, ouviram? É aviar, toca a aviar! Cautela que não fique por ahi alguma coisa esquecida: essas pás, esses «baleios», tudo isso. Margarida! ó Margarida! qu’é da tua rasa? Deixa! se vae no carro está bem.

E era como um doido a metter-se no serviço de todos,  muito expedito, loquaz, alegre, pedindo pelas bentas almas que se não deixassem agora dormir…

―Vamos lá! vamos lá! As pás, ó tu que cantas? Deixa-me por ahi alguma, que eu depois te ensinarei, ouviste?―Que faz ahi no chão esse «rasouro», ó coisa?―Olha p’r’o que estás a fazer, tu: esses saccos que fiquem bem atados.

O criado, que ia abalar com a carrada, perguntou, já de «aguilhada» no ar, se era preciso mais alguma coisa.

―Não, pódes ir. Ouves? lá em casa que tenham a ceia a horas. Avia-te. Ouves, Francisco? Não piques os bois, a carrada é valente. A passo, deixa ir os animaes a passo. Vae-te.

Como o carro chiava, levantou a voz para dizer:

―Olha, descarrega na tulha do meio. Na tulha do meio, não ouves? Os bois para o lameiro.

Mas o Francisco apontou dois saccos que ficavam:―«seria preciso vir por elles?»

―Não vale a pena, lá irão.

E depois, para aquella gente, observou que bem sabia elle quem os levava, aquelles dois saccos…

―Com mil demonios! Apostar que vocês não adivinham?

«Elles sabiam lá?… Quem quer podia levar os dois saccos, olhem agora!»

―O «Sultão», sabem? o «Sultão»! Esse é que os levava. E digo-vos então que valia o dobro a colheita, assim me Deus salve!

Alguns riram da lembrança. «Tinha graça que a scisma do animal não lhe passava nem á mão de Deus Padre!»

―A modos que isso é já mania, ó sr. Thomé?

Nisto, porém, o lavrador soltou um «oh!» de surpreza. Voltaram-se todos―«que era?» Na estrada que a eira dominava, um homem ia passando, a cavallo.

―Vocês não querem vêr, ó rapazes?! perguntou o lavrador, fazendo-se pallido.―Aquelle burro, hein? se não é o «Sultão» é o diabo por elle…

Recordaram:―«estrella malhada na testa, a mão direita branca»…

―É elle, com um milhão de diabos! não ha que vêr! E aquelle é o ladrão!

E cuspindo nas mãos, e arregaçando mais as mangas da camisa, arrancou, d’um abanão, o cabo d’uma «espalhadoura» e botou a fugir direito á estrada.

Prests ouviu-se um berreiro, as mulheres do rancho em alarido:

―Que o mata! gritavam todas.―Ai que o mata! Acudam! Ai a desgraça! Nem a alma lhe deixa! Acudam!

Os homens deitaram a correr atraz d’elle, affluia gente de todas as bandas da eira, os cães ladravam.

―Então, sr. Thomé? olhe que se perde, sr. Thomé! diziam-lhe, já agarrados a elle.―Largue o cabo, que se desgraça! Tudo se faz a bem, sr. Thomé, largue vossemecê o cabo!

―Qual bem nem qual diabo! Qual larga? Arreda! Racho-lhe as costellas, mais a vocês, se me não largam! Arreda!

E esbracejava furioso, levando-os de roldão, agarrados a elle mais ao cabo. Chegou a ferir um, os outros desanimaram por instantes.

―Vê, sr. Thomé?!

«Não via nada, não queria ver cousa nenhuma! Arreda!» E n’um rompante de ira, abrindo brecha com um «sarilho», de um pulo saltou á estrada, aos tropeções nas pedras que encontrava, mal se equilibrando.

―Abaixo! intimou.―Você é um ladrão!

―Um quê?

―Um ladrão! É meu esse burro! Hei-de matal-o aqui, seu patife! Deixem-me! larguem-me! Ha-de ahi ficar estendido, como um cão!

E no meio da malta em alvoroço, com a arreata do burro na mão esquerda, e na direita o minacissimo cacete, berrava que o deixassem, que ia tudo razo―«com seiscentos milhões de diabos!»

Seguiu-se altercação, vieram razões de parte a parte, insultos.

―Já lhe disse que você é um ladrão!

―Ladrão será você!―tornou-lhe o outro já de pé, avançando de punhos cerrados.―E não m’o diga outra vez, que o racho!

Afflictas, algumas mulheres voltavam-se, de mãos postas, para a capellinha proxima, rogando o soccorro da Virgem. O lavrador entrava de tremer como varas verdes, desfigurava-o a raiva, uma saliva muito branca bordejava-lhe os cantos da bocca. Pela camisa rota, via-se-lhe já um pedaço de hombro. Tinham, alfim, conseguido arrancar-lhe o cacete, mas agora esbracejava, punhos no ar sobre aquellas cabeças em desordem.

Já, para uns certos do grupo, o homem do burro se desculpava:―«tinha-o comprado a uns ciganos, fossem lá adivinhar que o burro era roubado…»

―Vê, sr. Thomé? acudiram logo uns poucos.―O homem não tem culpa.―E gritavam-lhe aos ouvidos:―Não tem culpa! Comprou o animal na boa fé. Vês-ahi está!

―Mente! objectava incredulo o Thomé, cada vez mais irado.―Mente!

―Mente?! perguntava o outro de lá, assanhado.

―Como um judeu! cuspia-lhe da outra banda o Thomé.

De modo que para o convencerem, foi preciso afinal leval-o quasi á má cara, chamar-lhe homem de rixas, despropositado, bulhento. Elle então, abrindo os braços como se fosse para nadar, socegou um pouco, amainou,―prometteu levar aquillo com paciencia, ás boas. Chegou quasi a pedir desculpa, limpando com a manga branca as bagas das camarinhas.―«Mas tinha perdido a cabeça, que lhe queriam?»

Chegou-se por fim a um accordo. «Sim, senhores, accommodava-se, mas punha uma condição: largasse elle o burro, e o burro é que havia de resolver…»

―Serve-lhe o contracto?

―Qual contracto?

―Mau! Larga-se o burro, você entende? deixa se o burro ás soltas. Depois, é p’ra onde elle fôr. Se o burro larga p’ra traz, lá p’r’as bandas d’onde você vem… Você d’onde vem?

―Dos Casaes.

―Pois ahi está. Se o burro tomar p’r’os Casaes, o burro fica seu…

―E tomando direito á aldeia, é do sr. Thomé,―concluiram alguns do grupo, conciliadores.

―Nem mais! Serve-lhe assim? Diga se lhe serve assim.

Por um desfastio, o outro concordou. Mas lá lhe parecia historia que o burro tomasse para a aldeia… Vinha de tão má vontade, que até lhe custara tiral-o de casa.

―Olhe que vae pr’os Casaes! Digo-lhe então que vae pr’os Casaes…―affirmou.

―Melhor p’ra você. Mas nós veremos p’ra onde vae. Você está pelo dito?―quiz saber o Thomé.

―Sim senhor, estou! Pois que duvida tem que estou? disse-lhe o outro n’um rompante. Olhe: uma, duas, tres; ás tres largo-lhe a arreata.

Ia já a abrir a bocca para dizer―«uma!»

―Alto! fez o Thomé. Espere lá um pouco. Primeiro hei-de fazer duas festas ao animal.

E pôz-se a bater-lhe na anca, no pescoço, no peito, demorando-se um pouco a fital-o de frente, «para que o animal o conhecesse.»

―«Sultão»! gritou-lhe de repente. Eh! «Sultão»!

O burro estremeceu… Dir-se-hia que no fundo da sua memoria, a lembrança porventura adormecida d’aquelle nome despertara subitamente…

―Eh! Eh! riu-se muito satisfeito o lavrador. O burro, agora, vira-se p’ra ali. Isso. Nem é p’r’os Casaes nem p’r’o logar. Assim. Eh! Eh!

E afastou-se para o lado, aguardando.

Uma anciedade dominava n’aquelle momento os do grupo; o Thomé pôz-se a roer as unhas, nervoso…

―Então você porque espera? perguntou.

Ouviu-se logo a voz do outro, dizendo:

―Á uma!…

O Thomé sentiu um calafrio; sapateava nervoso, cheio de medo, o olhar de esguelha, e entre os dentes ferrados o pollegar da mão direita…

―…ás duas!

―Ih! c’um raio!… dizia baixo o Thomé.

E sem querer, os olhos cerraram-se-lhe com força.

―…ás tres!

Foi então um barulho de palmas, um berreiro atroador de vivas e gargalhadas! O Thomé vencera: corriam todos a abraçal-o, affirmando que o caso era para foguetes.

―Viva o sr. Thomé! Viva o «Sultão»! Aquillo é que é burro!

―Aquillo é que é amigo, hão-de vocês dizer!―emendava o Thomé a rir. Tenho-os com dois pés, que não valem metade…

―Oh! sr. Thomé! protestavam alguns.

―Isto não é com vocês, mas é como quem se confessa… Está visto que não é com vocês.

E ria, ria como um perdido, emquanto, estrada fóra, o «Sultão» corria que voava, cauda no ar, corda de rastos, perdendo-se por fim lá ao fundo, na poeirada immensa da estrada, como que nimbado n’um resplendor de apotheose. E na peugada do burro, esbaforido e como doido, seguia agora o lavrador, após o fraternal abraço, pregado no dos Casaes…

Quando o Thomé chegou a casa, offegante, a suar, cheio de gestos e de palavras entrecortadas de riso, já o «Sultão», relinchando, pateava á porta do antigo cortelho, n’uma grande impaciencia, um «rap-rap» continuo na soleira.

―Venham vêr! Venham cá vêr! berrava o Thomé para a vizinhança. Ó Antonio! Ó compadre! Ó Maria Engracia!

Ás janellas assomava gente, perguntando se era fogo.

―Qual fogo, nem qual carapuça! É o «Sultão», mas é! Este inimigo! Ó Josepha! Josepha! cá temos o burro, este demonio. Assoma.

Ora imaginem agora os senhores, se podem, a effusão do lavrador. Abraços? E até beijos. Aquillo era um thesoiro perdido que reapparecia alfim. A mulher, do alto da escada, benzia-se, perguntando se o seu homem teria endoidecido…

―Palavra de rei, «Sultão», palavra de rei! Anda d’ahi pelos saccos. São só dois. Ó Josepha! Ouves? p’ra cá esse garrafão que está ao pé da arca, avia-te. A caneca tambem, ouviste? Essa das riscas vermelhas, a maior.

E atirando as mãos ambas para a albarda, montou muito regalado, de um pulo.

―Ah!

A senhora Josepha assomava, ajoujada com o enorme garrafão.

―Anda, mulher, põe aqui deante de mim. Avia-te.

Ia a boa da senhora Josepha arriscar uma observação, um conselho, qualquer coisa de tomo…

―Adeus, minhas encommendas! Não me fanfes, mulher, não me fanfes. Põe aqui, que mando eu, avia-te. Assim. Está bem.

―Nome do Padre…

―Então que lhe queres? Deu-me agora p’r’aqui!

―Nome do Padre, nome do Filho…

―A caneca! Venha de lá agora a caneca!

―…nome do Espirito Santo!

―Passa bem, ó mulher,―concluiu ás gargalhadas, entre as gargalhadas dos demais.―Ouves? Quando o Manoel vier dos ninhos, esse maroto, manda-m’o ás eiras. A trote, «Sultão»! Eh! valente!

E lá parte, veloz como uma setta. Já de longe volta-se do repente:

―Josepha! ó Josepha! n’esse alguidar do meio umas sopas de vinho p’r’o «Sultão», ouviste? No do meio. O grande é muito grande, e esse pequeno não presta. Ouves? mas quer-se coisa que farte, bem entendido.

E de novo despediu como uma flecha, abraçado ao garrafão. Arreata para a direita, arreata para a esquerda, pernas a dar a dar, elle lá vae n’uma corrida, sumido n’uma onda de poeira, até chegar ás primeiras «mêdas».

―Vinho, rapaziada! Ó Maria do Carmo, toma lá uma pinga, mulher! Lá por andarmos de mal ha 15 annos isso acabou-se!

E o Thomé atravessou a eira sempre a cavallo no «Sultão», caneca de vinho para a direita, caneca de vinho para a esquerda.

Meia hora depois regressava, o «Sultão» pela arreata, o Manoel no meio dos saccos, e adeante do Manoel o bello garrafão―sem pinga…

Pelo caminho, a todos o Thomé contava a historia, a rir como um perdido, n’um ah! ah! de gargalhadas sonoras, muito intimas.

―Colheita rica, sim senhores, um colheitão!

E parando á porta, ainda a mulher se benzia do alto da escada, mexendo e remexendo o alguidar de barro:

―Nome do Padre, do Filho, do Espirito Santo.

…Ao mesmo tempo que o Thomé, abrindo os braços, respondia reclamando as sopas:

―Amen!