O moinho da Raposa

O mancebo approximou-se da mesa, picou do rôlo uma porção pequena, enrolou o cigaro entre os dedos, e, depois de o accender á luz da candeia, assentou-se em um dos mochos, com os cotovellos fincados na tábua, e o rosto entre as mãos, não sem primeiro ter tirado do cinto um par de pistolas inglezas e uma faca de matto hespanhola, encubertas com as compridas abas do gabinardo, que trajava.

Antonio da Cruz appareceu instantes depois.

Era robusto, largo de hombros e de peitos, mas esbelto. Trigueiro, e queimado do sol, as suas feições lembravam o typo arabe. Os beiços grossos sorriam com franqueza, e, apezar de muito rasgada, tinha graça na bôcca, mesmo quando descubria os trinta e dois dentes alvos e agudos, como os do felpudo molosso, que saltava em volta d’elle. O cabello rente e crespo cortado quasi em bico sobre a testa era negro como azeviche. O nariz revirado na ponta dava certo chiste á physionomia; e nos olhos pardos e vivos como scentelhas brincava uma expressão de finura natural e de malicia jovial, que lhe caìa bem, e logo á primeira vista o faziam bem quisto.

De mediana estatura, mas proporcionado, era tido por um dos homens mais forçosos d’aquelles contornos. O seu nome servia de grito da guerra nas aldeias contra a brutalidade dos valentões de arraial. Nas praças de touros em Villa Franca, em Salvaterra, ou na capital nenhum forcado o egualava em apanhar os bois de cara, ou de cernelha. A cavallo era um centauro; a pé não tinha par no salto, ou na carreira; em mettendo a espingarda ao rosto aonde punha o olho punha a bala. O seu cajado manejado por mãos de mestre varria as feiras, zombando de facas e de espadas.

Sobrio como um anachoreta, presentido e vigilante como um mohicano, o seu maior defeito era ser impetuoso e assomado de mais. Em o sangue lhe subindo á cabeça, e em principiando a picar-lhe a pelle com pontas de alfinetes, segundo elle dizia, cegava-se, corria direito ao perigo, e, sem attender a nada, atirava-se a um precipicio.

Temente a Deus, tinha tanto de bom amigo como de implacavel inimigo. Portuguez e patriota extremo, amaldiçoava os francezes como jacobinos, e chorava de saudade pelo principe regente, D. João, ao qual só vira duas, ou tres vezes, em sua vida. Manuel Coutinho affeiçoou-se a este caracter firme, honrado, e decidido. O moinho e a horta pertenciam ao mancebo, e Antonio trazia-os de renda. Ligado á conspiração, por emquanto quasi inoffensiva, urdida em Lisboa contra o governo de Junot, conspiração que regia o conselho denominado Conservador, secretamente instituido no dia 5 de fevereiro d’aquelle anno para auxiliar a restauração do throno legitimo e da independencia, Manuel Coutinho confiava no humilde camponez, e communicava-lhe até recados de importancia. Executor discreto d’estas missões arriscadas, Antonio da Cruz comportava-se sempre com exemplar acerto, não só enganando o faro da policia de Lagarde, cujos espiões corriam por toda a parte, mas supportando resignado por amor de seu amo (assim lhe chamava), e da boa causa desafios e remoques, que em outra occasião seguramente custariam caros aos aggressores.

―Se não é hoje o fim do mundo, bradou elle entrando e saccudindo a agua de cima de si, não sei quando o será! Mas o lume em um instantinho está a arder. A lenha é secca. Ora, diga, meu amo: v. s.a traz sua vontadica de comer, não? Do Cartaxo aqui é um pedacito menos mau… e a chuva e o vento cavam cá por dentro como enxada em nateiro…

―Não. Não me faças nada. Se o appetite vier aqui temos de mais. Agora o lume sim.

―Essa é boa. Ha de perdoar; não senhor. Graças a Deus o Manuel nunca foi torto, nem aleijado, e ainda esta manhã, antes de almoço, não perdeu a polvora e o chumbo. Andavam aquelles fidalgos a saltar nas vinhas, e trouxe-os no alforge. Como os quer?…

E apontava para os dois coelhos mortos e pendurados junto do almario.

―Guizo-lh’os de molho de vilão n’um abrir e fechar de olhos, e depois ha de beber-lhe em cima um, ou dois copos de um vinhinho, que me deram, e que fica a gente a chorar por mais…

―Já te disse. O vinho e os coelhos guarda-os para ámanhã. Agora melhor me sabe este cigarro, do que todos os manjares. Accende o lume. Temos que falar.

O mancebo suspirou como quem se sente opprimido de tristeza, e lucta em vão por se vencer.

O Antonio da Cruz, curvo sobre a caixa da isca, a assoprar a chamma, ouvia-o, e percebeu-o, mas calou-se. A mecha pegou, e d’ahi a um momento levantava-se da lareira um clarão vivo e alegre, tingindo de vermelho as paredes e os pobres moveis da casa.

―Bem! disse Manuel Coutinho. Isto já parece outra cousa! Senta-te, e come!

―Salvo o respeito, saiba v. s.a que não tem pressa.

―Tem. Come e despacha-te. Depois falaremos. É preciso sair logo…

―Ah! Então a cousa aperta? Para termos de saír por uma noite d’estas!…

―Póde bem ser a ultima da vida de umas poucas de pessoas! exclamou o mancebo, pondo-se em pé agitado.

―Melhor o ha de fazer Deus, senhor Manuel! redarguiu o moleiro com a sua tranquillidade apparente, que illudia os que o conheciam mal. Com sua licença! ajuntou sentando-se á mesa, e rompendo o assalto contra a broa e as sardinhas, regadas de copiosas libações de agua-pé. Os sacos pesam seis alqueires, e por aquella escada acima apalpam as costellas. Á saude de v. s.a! A minha pena é que não quizessse provar dos coelhos e do vinho do convento de S. Francisco. Olhe que os padres sabem escolher do fino!…

―Que gente era aquella, que esta noite vi na Casa Negra? perguntou Manuel Coutinho, que as proezas gastronomicas de Antonio já não maravilhavam, porque fôra testemunha d’ellas muitas vezes.

―Gente na Casa Negra? Na Casa Maldita?!… accudiu com a bôcca cheia, e estremecendo.

―Sim! Vi luz em cima, na terceira janella, e ouvi risadas e vozes no andar terreo. Não sabes o que será?!

―O meu padre Santo Antonio nos accuda! Cousas do demonio, que desde que me entendo é o unico morador d’aquelle casarão! Mas v. s.a está bem certo!?… Gente a estas horas alli! Não póde ser!

―Tanto póde, que havia fogo na cosinha, e gente a rir, a falar, e a aquecer-se a elle!

Antonio da Cruz enguliu á pressa o ultimo boccado, poz á bôcca cheio a trasbordar o copo de agua-pé, e pousando-o vasio com um suspiro, tirou o barrete e benzeu-se.

―Olhe, senhor, creia v. s.a o que lhe digo! tornou meio atalhado. Gente d’este mundo não era de certo. Por estes arredores não havia quem se atrevesse!… Ah, Jesus, Santo Nome de Maria! accrescentou mais pallido. Deram ainda agora, á noitinha, um tiro no Antonio Simões. Dizem que o mataram; mas o corpo não appareceu! Querem ver que foi parar a alma…

―Antonio! accudiu o amo um pouco severo. Alma que vae não volta! Isso são medos de criança. Os hospedes da Casa Negra estão vivos, como eu, e tu. Agora o que preciso saber, e já, é o que são e o que fazem alli!…

―Será o sargento Cabrinha, aquelle jacobino! Andou esta manhã pelo sitio com as milicias. Só se fôr elle! O maldito ri-se de Deus e do diabo. Ha de chegar-lhe a sua vez.

―Prendeu alguem?!…

―Dizem que sim, ahi para os sitios do Casal do Ouro.

―Ah! exclamou o mancebo. Capaz seria elle? Se fosse quem receio!… Ouviste dizer?…

―Um velho e sua filha. Os nomes não m’os souberam dar.

―Nem é preciso! interrompeu Manuel Coutinho em voz soffocada, e com os olhos inflammados. O infame Lagarde cumpriu a promessa. Verá se a de um portuguez lhe fica atraz! Os nomes sei-os eu; dizia-m’os o coração antes de aqui entrar. Mas!…

Conteve-se, e caíu em reflexão profunda. Antonio da Cruz, tambem de pé, e animado, desde que sabia que não era com os demonios, ou com as almas do outro mundo a contenda, esperava, olhando para a espingarda, que uma palavra do amo lhe pedisse o apoio do seu braço.

―Depois de curta pausa, o mancebo, renovadas as escorvas das pistolas, e cingida a faca de matto, virou-se para o seu confidente e disse-lhe:

―Queres saber como se chama o velho, que o sargento arrasta preso a Santarem para o entregar á vingança dos francezes? É Paulo de Azevedo Carvalho. E sua filha…

―A senhora D. Leonor?! A noiva de v. s.a!… Jesus… Pobre menina!

―Buscam-o para o processar como rebelde desde o caso de Mafra. Tinham-se escondido na Aramanha, e esse villão do sargento Cabrinha, por trinta moedas prometteu entregal-o. Não o achando já alli, correu os arredores, e de certo o foi encontrar no Casal do Ouro pela denuncia…

―Do Sapo! Foi o Sapo, aposto! Por isso o patife andava desde hontem de orelha fita e focinho aguçado! Só ao moinho, aqui, veiu duas vezes! Ah! Se eu soubera! Partia-lhe outra perna. Não importa. O que não se acaba dia de S. Braz n’outro dia se faz. Não as perde.

―Antonio! Paulo de Azevedo não ha de entrar na cadeia da villa, nem na de Lisboa. Esta noite a «Casa Negra» terá outra historia talvez mais feia que juntar á sua. Aprompta-te! Á meia noite saímos. Pódes resar por alma do sargento, se o encontro!