A Alberto Braga.

Esse anno, a festa da senhora das Dôres devia ser coisa de estalo. A começar pelo juiz, todos os da mesa eram de respeito―abonados e decididos. Tanto assim, que o fogo preso, que afinal era o melhor da festa, vinha lá de Chaves, longe que nem seiscentos diabos. Mas era obra de geito, acabou-se! Tinha-se dito ao homem que trouxesse coisa que representasse uma cegonha. O homem respondera que sim, e dava mesmo a entender que traria mais animalejos, uma bicharada, talvez um macaco, se tivesse tempo de o acabar.

―Homem de uma canna! resumiu o juiz quando acabou de lêr a carta. E correu a espalhar a noticia, orgulhoso de que «no seu anno» a coisa fosse de arromba! Depois, era um despique. No anno atraz, o José da Loja, que tinha sido o juiz, gabara-se do seu fogo, só porque vinha lá uma peça que era um castello a dar tiros, assim: Fff! Pum!

―Ora deixa estar que eu te arranjo… murmurou com os seus botões o Antonio Fagote. E sorria satisfeito, de se lembrar que na noite do arraial todo o povo o havia de acclamar, dar-lhe vivas pelo fogo que apresentára. Espalhou-se a novidade. Uma hora depois, na villa, ninguem fallava n’outra coisa.

―Então você já sabe?

―Já sei. A cegonha.

―A cegonha e o mais: um cavallo, um bezerro…

―O que eu quero vêr é o camello. Feio bicho, já viu?

―Pintado. No Monteverde se me não engano. Logo adeante do Valente Rei Arauto Fiel.

Enganava-se.

O escrivão da camara, que tinha laracha, encontrou-se na rua com o Alves aferidor.

―Até que emfim, amigo Alves. Até que emfim vou ter o gosto de o ver arder.

O outro não percebeu. «Que se explicasse…»

―Um urso, no arraial queima-se um urso.

―Então ardemos ambos, redarguiu embezerrado o Alves.―Tambem se lá queima um burro.

Ás duas por tres, o Antonio Fagote viu a casa cheia de gente. Quem não ia, mandava recado: todos queriam saber se vinha o animalejo da sua predilecção.

O homem começava a azedar-se. Chegou mesmo a mandar fechar a porta, por dentro.

―Põe a tranca, se fôr preciso.

Mas então era cá da rua:

―Ó sr. Antonio!

E na porta as pancadas ferviam:

―Truz! truz! truz! Sr. Antonio!

―Éna! c’um raio de diabos!―fazia lá de dentro o homem, furioso.

―O senhor faz favor? É só uma palavrinha.

Á janella assomava então o Antonio Fagote, com os oculos na ponta do nariz e a carta do foguetorio na mão.

―O camello? perguntava zangado.―O urso?! Camellos me parecem vocês, ouviram? O que o homem diz é isto.

E lia a carta, rematando:

―Uma cegonha, outros animalejos, quem sabe lá o que serão, e talvez o macaco, se houver tempo de o acabar. E agora, sabem que mais?… Tirava os oculos e ia-se embora, capaz de os trincar a todos.―Irra!

E lá de si para si pensava que era melhor ter guardado segredo. Não fosse elle burro… Mesmo porque cada um começou logo a inventar animaes, e todos é que não podiam vir. Claro! E não vindo todos, ahi tinhamos nós descontentes. E havendo descontentes, quem lucrava era o José da Loja.

―Temos o caldo entornado! pensava afflicto o Fagote, amedrontado com aquelle espectro do José da Loja, o seu rival! De mais a mais, já lhe tinha chegado aos ouvidos que o outro agoirava mal do negocio…

―Farofias! tinha dito o José da Loja. Farofias!

―Pois se m’o diz na cara, arrebento-o! vociferava o Fagote, quando tal soube.

E arrebentava, que o Fagote era homem para isso, tinha pulso. Desde rapaz que uma lenda de valentia se fizera na sua vida: contavam-se proezas, desde uma vez que varrera uma feira, por causa de eleições. Depois, bom olho para a caçadeira. D’uma occasião, que foi preciso dar montaria aos ladrões, portou-se como um leão, foi elle que deu voz de preso ao chefe da quadrilha. E como foi que lh’a deu? A phrase ficou lendaria:

―Como-te a alma se te mexes!

―E o outro não se mexeu, que elle comia-lhe a alma! commentavam convictos.

Como esta, muitas outras. E foi talvez por estas proezas que a sua figura adquiriu para a velhice o geito desempenado que tinha. Estava com 60 annos e a sua attitude viril impressionava ainda agora. Não era nutrido, mas era sanguineo, tez morena, cara rapada, olhos pequenos, ]uma largura de hombros que era o principal indicio de força. Pescoço curto. Mesmo a brincar, quando cerrava os punhos e arremettia com força, conhecia-se-lhe a rijeza dos musculos n’aquelle movimento sacudido.

―Safa! que isso ahi é de ferro! diziam os rapazes. D’uma canna, hein?

Mas bom homem, d’uma grande franqueza de modos, simples e affavel. Para se sair era preciso pical-o. E uma vez, quando era juiz ordinario, uma testemunha tanto o picou em audiencia, que elle desceu lá da cadeira, foi-se a ella e quebrou-lhe a cara. Por isso fallava sério quando promettia arrebentar o José da Loja. A mulher interveio pacificadora:

«Que não desse ouvidos a ditos. Deixasse o homem, que não era tão mau como o pintavam.»

―Ó mulher! cala a caixa e não me defendas esse velhaco! redarguiu o Fagote. Do que elle é capaz sei eu.

Mas n’esta occasião, de todas as velhacarias do José da Loja, só lhe lembrava uma: ter sido juiz o anno atraz!

Isto parecia-lhe com effeito uma velhacaria, feita a elle que era juiz este anno.

―Pois tu que pensas? dizia elle para a mulher. Quem me metteu a festa em casa foi elle. Elle é que se lembrou de me escolher, como quem diz: «entrego-te a vara, sempre quero vêr como te arranjas…»

―Nome do Padre, do Filho… A mulher benzia-se «das idéas do seu Antonio.»

―Sejam idéas, que não sejam! teimou o Fagote. Isto foi tal e qual, assim me Deus salve!

―Mas quem t’o disse, homem? Quem foi que t’o disse?

―Quem m’o disse? Olha! E mostrou-lhe o dedo minimo da mão direita.―Foi este mindinho. Não falha.

E então desabafou: «que não pensasse o José da Loja, que o havia de levar á parede. Agora levava! A festa ha-de se fazer, e festa de arromba; nanja como a d’elle que só levava seis anjos, e não sei quantos andores, acho que meia duzia!»

―Ó mulher, então é para que saibas onde chega o brio d’um homem! Caramba! Sendo preciso, ouves? sendo preciso até vendia a camisa do corpo. Nem trinta sanfonas como o sanfona do José da Loja! E espipava olhos de colera para a mulher que remendava uns saccos, compungida de ver assim o seu Antonio.

E poz-se então a renovar ordens, recommendações que a mulher já estava farta de ouvir. «Mas com tempo é que as coisas se pensavam, não era ao atar das sangrias!»

―Leitões se os cá não houver, manda-se o Miguel á cata d’elles por esses povos á roda. Querem-se de 7 semanas, tres pelo menos.

A mulher contraveio:―«dois seriam bastantes…»

―Mau que ahi principiamos nós!―E poz-se a assobiar e a rufar com o pé no soalho, arreliado.―Tres é que hão de ser. Não quero cá dois, porque dois eram os do outro, o anno passado.

A esta razão, a mulher calou-se. O Antonio Fagote gostou do silencio da mulher, que o lisongeava nos seus despeitos contra o outro.

―Agora não fanfas tu… insistiu elle, risonho. É assim mesmo que eu gosto. Signal é que tens vergonha. A outra tamem não é mais que a ti.

A outra era a mulher do José da Loja, está visto.

―Nem mais, nem tanto, emendou a Luiza Fagote, abespinhada.

―Isso mesmo! abundou o juiz da festa. Não me lembrava agora que antes de casarem…

―E olha que depois de casada… insinuou a sr.a Luiza, de venta no ar, enfiando a agulha. Cala-te bocca.

Façamos de conta que a bocca se calou, com effeito. Que não se calou. Mas n’este particular, o resto do dialogo convém que se omitta, mesmo porque afinal nem eu nem os senhores queremos mal á mulher do José da Loja. Ha-de perdoar-me o Antonio Fagote, mas n’isto não lhe faço a vontade. O pudor acima de tudo! E ademais elle bem sabe que eu sou conhecido da mulher. Adeante. Basta que lhes diga que por uma associação logica de idéas a conversa veio parar em vitellas…

―É preciso vermos como ha-de ser isso da vitella, disse o Antonio Fagote. Sem vitella é que se não faz nada. Uma perna sempre se gasta.

Combinaram fallar com tempo ao Manoel Cortador, segurar esse negocio. De mais a mais sabia-se que o prégador dava o cavaco por um bom pedaço de vitella assada.

―O prégador é que arrasta ahi muita gente, observou a sr.a Luiza. Para um boccado de sentimento não ha como elle. Quando foi das missões, o que elle dizia d’aquelle pulpito abaixo! É quanto se póde!

―A mim o devem, se cá vem!―disse orgulhoso o Fagote. Que o homem não queria vir, desculpava-se com a saude: que tinha de ir a umas caldas, e 14 leguas a cavallo por estas caniculas eram de acabar com elle.

―Isso desaba ahi o poder do mundo! Em se sabendo que é o missionario…

Estavam n’isto, quando bateram á porta. O Fagote foi ver á janella.

―Bem, muito obrigado. E a senhora mestra? Estimo, estimo.

Era a creada da mestra regia, foram abrir.

―A senhora mestra manda muitos recadinhos, saber como está a sr.a Luiza, e este bilhetinho para o sr. Antonio.

Entraram todos na saleta. Como era já tarde, o Antonio Fagote foi accender uma luz.

«Que conversassem, emquanto elle via se tinha resposta.»

―Muito calor, começou a sr.a Luiza.

―E então a casa da sr.a mestra que é mesmo um forno, disse por demais a creada.

E antes que a conversa pegasse, avisou a sr.a Luiza, ao ouvido, de que lhe queria uma palavrinha.

Foram para uma varanda que havia nas trazeiras. A tarde descahia, n’uma serenidade calma. Sentaram-se uma junto da outra, muito familiares.

―Está se aqui bem! exclamou consolada a sr.a Luiza.

―Está. E então bonitas vistas. Mas o que eu queria dizer era pedir-lhe um favor, disse atrapalhada a creada.

―Se estiver na minha mão…

A outra começou: «A sr.a Luiza estava ao facto do que se dizia d’ella com o criado do inglez. Decerto estava ao facto. Mas era mentira. Jurava-lhe pelo que havia de mais sagrado que era redonda mentira.»―Estamos para casar! é o que estamos! «Elle já mandara vir os papeis lá da terra, não podiam tardar».―Está claro que eu tenho affeição ao rapaz…

―Elle esteve ahi doente uma temporada, interveio a sr.a Luiza, para dizer alguma coisa.

―Esteve. Umas quartans que o iam arrebanhando. Mas é ahi que eu quero chegar.

―Que experimente o limão azedo, aconselhou a sr.a Luiza. É milagroso nas quartans. Não se afflija, que isso não ha-de ser nada.―E dispunha-se a consolar a rapariga, a dizer-lhe tudo o que sabia de bom para matar quartans, pensando que era o que ella queria, afinal.

―Não senhora. O rapaz está melhor. Caso é que não recáia. Mas é por via d’isso que eu lhe quero pedir um favor.

Chegou para ella o banco de cortiça e confidenciou:

―Já o andam a desinquietar para ir com os mais furtar a bandeira, qualquer noite. E elle vae, prometteu que sim. Mas veja, n’aquelle estado! inda não ha nada que sahiu da cama.

―Pelos modos, os rapazes vão este anno longe pelo pau, disse com pompa a sr.a Luiza.―Muito longe!

―Ouvi que á Ribeira Velha, ao lameiro do Canellas. E logo com quem elles se vão metter, o Canellas! Se desconfia, vae-se para lá de clavina e faz alguma desgraça. Mais elle, que é atrevido!

Cautelosa, a mulher do juiz redarguiu que lá onde elles iam pelo pau é que ella não sabia.

―A outra noite é que para ahi estiveram a combinar, o meu Antonio mais os mordomos. Não ouvi.

―Pois é lá! exclamou a creada. Mas o que eu queria, sr.a Luiza, é que o seu marido me não deixasse ir o rapaz na malta,―supplicou afflicta a rapariga.

―Lá isso, esteja descançada, não vae! prometteu com grande auctoridade a sr.a Luiza.―Digo-lhe eu que não vae. E se não quer mais nada…

―Era só isto, muito agradecida á senhora.

N’esse momento entrava o Fagote, em mangas de camisa, os oculos para a testa.

―Ora pois então aqui vae a resposta. Má letra, a sr.a mestra que desculpe. Mas emfim que leia como podér.

―Então muita massada co’a festa? inquiriu solicita a rapariga.

―Muita. Faz lá ideia? Massada e despesa. Olhe que se faz despesa. Todos os dias são precisas coisas, mais isto, mais aquillo. Ahi está que já hoje mandei pedir para o Porto uma palheta para o clarinete do Alves.

―Chh! fez admirada a rapariga.

―Pois é verdade. Fóra o mais! fóra o mais! Nicas! E depois d’uma pausa:―Só com o que se gasta no jantar, e é verdade que ha muita coisa de casa, mas só com o que se gasta no jantar, a bem dizer que se fazia uma horta, além no prado.

―Muita gente… disse a rapariga.

―Muita! e depois de certa aquella… Á meza talvez vinte e quatro pessoas…

A rapariga benzeu-se!

―Vinte e quatro, p’ra mais que não p’ra menos, insistiu o Antonio Fagote.―Olhe: o prégador…

―Isso dizem que é coisa asseada! interrompeu a rapariga.

―É. Não o ha melhor. Missionario…―explicou o juiz. Pois o prégador, um; com mais quatro padres, cinco; com quatro musicos, nove; o compadre, os pequenos, dois, doze.

―A comadre não vem! que pena! fez do lado a sr.a Luiza.

―Não. O compadre e os pequenos já disse. Doze. O Morgado da Fonte e o Antonio Capador, quatorze. O Telles, é verdade, Telles escrivão, quinze. (Pausa). Com mais alguem que venha, vinte e quatro. Póde-se contar com mais de vinte e quatro pessoas á mesa.―E a rir-se: Mas ha-de sobrar muita coisa, graças a Deus… E depois os pobres?

―Isso então é uma praga! exclamou a sr.a Luiza. Até parece que veem do chão assim… E collocava em pinha os dedos todos das mãos ambas. Assim…

Mas fazia-se tarde, a rapariga despediu-se.―«Adeusinho! o que havia de estimar é que tudo corresse como desejavam.»―E se fôr preciso qualquer coisa… offereceu-se. As minhas fracas posses…

―Obrigada. Não faltarão occasiões. Muitos recadinhos á senhora mestra…

―E que hei-de estimar que o mano chegue de saude, concluiu o Antonio Fagote.

E então explicou á mulher: «Aquelle bilhete da mestra era a mandar-lhe perguntar se sempre era certo vir o macaco de fogo».

―Diz que o irmão, o brazileiro, assim que souber que ha macaco de fogo no arraial, não tem mão em si que não venha. E Deus o queira, porque o ponho ao pallio. Como tres e dois serem cinco.

A senhora Luiza quiz saber a resposta que lhe mandára.

―Disse-lhe que sim. Pois?! O que eu quero cá é o brazileiro. Sempre é homem que sabe dar o merecimento ás coisas… Mas o diabo agora é o macaco! ponderou muito apprehensivo. Está para ahi meio mundo á espera do macaco…

A senhora Luiza quedou-se pensativa, absorta no seu receio de que o bicho não viesse.

―Táte! fez o Antonio Fagote, batendo uma palmada rija na testa.―Dá cá d’ahi a minha vestia. Manda-se uma «parte» ao homem.

―Tambem póde ser, concordou a senhora Luiza. Mas hoje é que não, aquillo já está fechado, o fio.

―Vae ámanhã. «Agradeço favores. Traga macaco sem falta». Isto. Talvez accrescente: «Não se olha a dinheiro». Mas é que accrescento, por via das duvidas.

Então, a senhora Luiza confidenciou quasi ao ouvido do homem:

―Ouves? já se não póde ir ao lameiro do Canellas pelo pau.

―Han? qual pau?

―O da bandeira. Todo o mundo já o sabe.

Elle riu-se.

―Todo o mundo, hein? Melhor! Oh! oh! todo o mundo!…

E como ella ficasse estupefacta.

―Nunca ouviste dizer que se põe o ramo n’uma porta e que se vende o vinho n’outra?

―Ah!…

―Mas são verdes. Pois ahi é que vae a historia, e cantarolou, satisfeito:

O ladrão do negro melro

Onde foi fazer o ninho

Mas o melhor do caso foi no dia seguinte, quando logo de manhãsinha o Antonio Fagote sentiu bater á porta, de rijo.

―Vae lá ver o que será, ó Luiza!―disse da cama o Fagote sobresaltado.

Não tardou nada que o José Manco lhe entrasse de rompante pelo quarto.

―Vista-se, homem! Ande d’ahi depressa! Vista-se.

―Ha novidade? perguntou logo o Fagote, sobresaltado.

―Vista-se! com dez milhões de diabos! Insistiu o outro.

―Hom’essa! fez espantado o Fagote. Alguem á morte?

―Peor do que isso! resumiu o José Manco.

―Peor do que isso, então não sei…

―Não tardará que o saiba. Avie-se, que eu cá o espero na rua.

O Antonio Fagote vestiu-se á toa, aparvalhado. Foi já na rua que acabou de enfiar a jaqueta. As correias dos sapatos iam de rastos, não levava chapeu.

―Prompto! cá estou!

―Venha comigo, avie-se. Abotôe as calças, se faz favor.

E rodaram rua acima.

―Diabo! mas então…? ia perguntando o Fagote.

―Aguarde, que já vae saber. Não tarda.

De quatro escanchadas foram dar ao adro da egreja.

―Roubaram Nosso Pae, aposto?!

―Peor! redarguiu o outro. Peior! Alto ahi! Ora arregale-me esses olhos e veja vossemecê isto, esta porcaria!

E tragicamente, o José Manco apontou para meia folha de papel, pregada na torre com miolo de pão centeio mastigado. Era um pasquim! Varios desenhos de animaes, sobresaindo um burro de grandes orelhas, aos coices. E no fundo, em grandes caracteres, isto:―Farofia!

Por um pouco, Antonio Fagote, de mãos atraz das costas, amarasmou-se, com os olhos fitos no papel.

E quando o outro pensava que elle ia romper desaustinadamente n’uma escamação, aos labios do Antonio Fagote aflorou apenas um sorriso.

―Hum! resmungou. Bem sei…

―Não tem que saber,―fez o outro.

―O patife do Jose da Loja…

―Pois está visto.

―Bem, levará quatro lambadas, epilogou com grande socego o Fagote.―Arranque lá isso, e venha você d’ahi, se quer ver.

O José Manco não queria ver, fazia ideia. Mas opinou prudentemente que era melhor botar o patife ao desprezo.

―Pois sim, disse o Antonio Fagote, dobrando em quatro o papel e mettendo-o na algibeira de dentro.―Pois sim!

Mas o outro que o conhecia, insistiu no pedido, com certos argumentos arrancados do codigo penal. «Que não fosse agora pagar por bom semelhante estafermo. Como mordomo, tambem era com elle a offensa, com elle José Manco. Mas fazia de conta… Como o outro que diz, vozes de burro não chegam ao céo».

―Bem, levará só uma lambada, attendendo a que mais ninguem viu isto, disse n’um grande ar de condescendencia o Fagote.―E você vá lá regar a horta.

Foi-se d’alli direito á casa do José da Loja. Estava ainda fechada. Poz-se á cóca, de longe, com a ira muito exulcerada pela arrelia d’aquella demora.

―Grande cão! grande cão! monologava.

Até que emfim reparou que a porta se abria. Era o rendeiro em pessoa, de casaco de lona e chinelos de trança, muito fresco. Não deu pelo Antonio Fagote senão quando se viu ao pé d’elle, cara a cara entre o balcão e a porta.

―Ó sr. José.

―Dirá.

―Venho aqui saber d’um caso.

Tirou do bolso o papel, desdobrou-o, devagar, e depois de lh’o pôr ao pé da cara:

―Foi o sr. José que fez isto?

O outro olhou-o, attonito.

―Sim! se foi o sr. José que fez isto?

―Nada, eu não senhor.

―Jura pela boa sorte dos seus filhos?

Aqui, o tendeiro entupiu, desconfiado.

―Jura pela boa sorte dos seus filhos? repetiu mais de rijo o Fagote.

O José da Loja, moita! Então o juiz explicou-lhe:

―É porque se jura, muito bem. Se não jura o caso é outro.

―É outro, que outro?!―disse arrogante o José da Loja, n’um impeto, barriga panda sob o casacorio de lona.

―Isto!―E foi-lhe uma bofetada para a cara.―E muito caladinho, que eu tambem não digo nada. Agora o papel, olhe! Fel-o em pedaços, e atirou-lhe com elles á cara aparvalhada.

Sahiu d’alli e foi matar o bicho, tranquillamente, como quem vem de cumprir uma obra de misericordia.

Na vespera da festa, um sabbado ás 10 horas da manhã, o fogueteiro passava emfim n’um deslado da villa direito á capella da Senhora das Dôres. Largou um foguete, que estrondeou no ar, galhardamente.

―O fogueteiro! chegou o fogueteiro!

Por toda a villa passou um longo fremito d’enthusiasmo quando se ouviu o foguete. Deshabituados, os cães ladravam, em correria doida pelas ruas. O rapazio levantou-se em algazarra, e correu ao encontro do fogueteiro,  a admiral-o, a offerecer-se. Na labuta viva das casas renovavam-se ordens já dadas. Aquelle foguete era a bem dizer o primeiro ruido da festa, não havia tempo a perder. De casa dos mordomos saiam esbaforidas as creadas, com ordem de se informarem do que precisaria «o sr. fogueteiro». Alguns mais previdentes mandaram almoço, e que dissesse o que queria para o jantar.

Solemnemente, o juiz da festa atravessou quasi a correr a villa, perguntando a todo o mundo se o que estoirára tinha sido effectivamente um foguete.

―Foi foguete! pois que duvida! diziam-lhe radiantes. Promettia, sim senhor! promettia! Se fossem todos assim… Caramba! que estoiro! Pum!

―P’ra que saibam! clamava o Antonio Fagote. E então isto? e punha-se a girar de volta com o braço―o que é fogo do chão?―Mas tinha-se visto em calças pardas para que o homem não faltasse. Complicações! Pelos modos tinham-no convidado para outra festa, com mais bagalhoça, está claro. O caso tinha estado sério!

Mentia.

―Hein? mas não o enganavam?

―Qual! era o fogueteiro sem tirar nem pôr. Lá ia elle a atravessar as eiras, com duas bestas carregadas. Caramba! duas cargas de fogo!

O juiz botou a fugir. Quando passou pela porta do abbade, gritou cá da rua:

―Senhor abbade! ó senhor abbade!

―Que é lá?

―Chegue á janella, faz favor?

―Mas está muito sol, entre você, se quer.

―Só duas palavras:

O abbade, um rapaz novo, assomou á janella.

―Que é?

―Chegou o homem!

―O homem! que homem?

―O fogueteiro, quem ha-de ser?

―Ah, sim, disse o abbade a rir-se, velhaco. E você vae ter com elle?

―De cara.

―Faz-me então um favor?

―Dirá.

―Dê-lhe recados meus.

E retirou-se da janella, a rir, emquanto o Antonio Fagote proseguia no seu caminho, esbaforido, espalhafatoso, perguntando a toda a gente se aquillo tinha sido o fogueteiro.

―Grande homem! com seiscentos diabos!

Quando chegou ao adro estava tudo cheio de rapazes, em redor dos dois machos carregados. O Fagote cuidou morrer de contente. Foi-se ao fogueteiro, com furia.

―Esses ossos! e abraçou-o arrebatado, enternecido, chamando-lhe «seu amigo, seu grande amigo».

―Rapazes! gritou elle então. E tirou o chapeu da cabeça, muito solemne.―Viva o senhor fogueteiro!

―Viva!

…Isso não juro, porque não reparei. Mas estou em dizer aos senhores que o Antonio Fagote―chorou!…